Frustração marca escolha de Kohler para FMI Do correspondente Paulo Sotero
Frustração marca escolha de Kohler para FMI Do correspondente Paulo Sotero14/Mar, 23:12 Washington, 14 (AE) - O endosso relutante do presidente Bill Clinton ao alemão Horst Kohler encerrou hoje o impasse para a nomeação do sucessor do francês Michel Camdessus no cargo de diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional. Apesar das reservas que o secretário do Tesouro, Lawrence Summers, tinha sobre as qualificações de Kohler, que é atualmente presidente do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (Berd), e da clara preferência americana pelo ministro das Finanças da Itália, Giuliano Amato, Clinton ligou na segunda-feira para o primeiro-ministro da Alemanha, Gerhard Schroeder, e confirmou seu o apoio ao segundo candidato de Berlim para o comando do FMI.Algumas horas antes, Kohler recebera o aval da União Européia. Altos funcionários americanos admitiram que a decisão de apoiar Kohler foi tomada, no final, menos em função do critério de busca do "candidato de estatura máxima", que a Casa Branca chegou a anunciar publicamente, depois de repudiar e humilhar o primeiro candidato alemão - o vice-ministro das Finanças Caio Koch-Weser -, e mais para evitar um aprofundamento da intensa crise que o episódio produziu entre os Estados Unidos e um de seus aliados-chave na Europa. Até o fim da semana passada, havia resistência a Kohler na Itália e na Inglaterra. Ex-vice-ministro das Finanças da Alemanha no governo de Helmut Kohl, Kohler, de 57 anos, foi um dos arquitetos da reunificação financeira da Alemanha. Seu nome foi formalmente apresentado ontem à diretoria do FMI. Paralelamente, o governo de Tóquio anunciou a retirada da candidatura do ex-vice-ministro das Finanças do Japão Eisuke Sakakibara em favor de Kohler. E esperava-se, hoje à tarde, pela desistência formal do americano Stanley Fischer, primeiro-vice-diretor-gerente que assumiu o comando interino do FMI depois da saída de Camdessus, em meados do mês passado. Num gesto calculado para evitar que Fischer renunciasse, Clinton, que na semana passada negou-lhe o apoio americano, "enfatizou (a Schroeder) a importância da permanência de uma equipe forte de administradores no Fundo". Fischer, cuja candidatura foi apresentada por um grupo de países africanos e que é considerado o candidato mais capaz para dirigir do FMI, confirmou que pretende permanecer em seu posto até o fim de seu atual contrato, em 2002. Kohler deve visitar Washington na próxima semana e reunir-se com os 24 diretores-executivos do FMI, que representam os 182 países sócios da instituição, antes de ser oficialmente eleito. Embora não haja mais dúvidas de que esse será o desfecho da briga, a forma como o processo de escolha foi conduzido pelos países industrializados deixou um intenso sentimento de frustração entre os participantes e expôs o FMI a novas críticas num momento delicado. "Foi uma catástrofe, um completo fiasco" disse uma alta fonte do FMI. "Todos perderam e ninguém ganhou - a Europa perdeu, porque mostrou que não está preparada para produzir o melhor candidato; a Alemanha também perdeu, porque teve seu primeiro candidato rejeitado, os EUA perderam porque tiveram que engolir um nome que não queriam, e o Fundo perdeu , porque deu munição a seus críticos insistindo num processo de escolha pouco transparente e totalmente inadequado, no qual os países em desenvolvimento não têm voz", acrescentou. "E saíram desgastadas e diminuídas também as pessoas envolvidas, como Fischer, o próprio Kohler, que assumirá depois de ter suas credenciais para dirigir o FMI questionadas pelos EUA e pela Itália, e o próprio Caio Koch-Weser, que talvez não fosse o melhor nome para ocupar o cargo de diretor-gerente, mas não merecia ser publicamente humilhado como foi, pois é um homem de óbvios méritos, cuja carreira no Banco Mundial foi marcante o suficiente para que ele fosse convidado para ser vice-ministro das Finanças da Alemanha, a maior potência econômica européia, mesmo sem ter morado no país nos últimos 25 anos." De acordo com esse ponto de vista, amplamente compartilhado nos meios oficiais e nos organismos internacionais, os únicos participantes que tiveram um desempenho positivo, mas sem sucesso, foram os países em desenvolvimento, que são os que têm mais em jogo na decisão, mas controlam uma proporção minoritária dos votos do Fundo. "Os governos dos países emergentes agiram de forma mais madura, pois propuseram que a escolha fosse feita em torno de princípios e não de nomes", disse um assessor da presidência do Banco Mundial (Bird). O presidente do Bird, James Wolfehson, iniciou hoje a operação de contenção de danos elogiando Kohler. "Estou feliz que isso (a crise da sucessão no FMI) tenha finalmente terminado", disse ele. "Horst Kohler é um bom amigo, um líder admirável e será um grande diretor-gerente do FMI." Wolfenhson lamentou o tratamento dado a Caio Koch-Weser, lembrando que ele deu contribuições importantes nos anos em que trabalhou no Bird. No Tesouro, assessores de Summers disseram que ele guardou "uma impressão muito favorável de Kohler" entre 1993 e 1998, quando ambos trabalharam como vice-ministros das finanças de seus respectivos governos.





