‘Fronteira precisa de leis especiais’
Ney de SouzaMercadoFaisal
Saleh
preside o
Instituto
Pólo
Internacional
Iguaçu que
fornece
subsídios
para as
reuniões
especializadas
do MercosulValmir Denardin
Com nome árabe, mas filho de brasileiros e nascido no Paraná, o empresário Faisal Saleh, que, desde o dia 6 de agosto preside o Instituto Pólo Internacional Iguaçu, defende que os países do Mercosul criem leis especiais para as regiões de fronteira, principalmente para a mais importante e movimentada fronteira do bloco: o encontro entre Brasil, Paraguai e Argentina. Formada por seis municípios, essa região compõe um dos importantes centros turísticos do mundo, legalmente reconhecida como Pólo Turístico Internacional Iguaçu.
Fundado há dois anos, o instututo (em cujos registros o ‘‘Iguaçu’’ é grafado com dois ‘‘s’’, como no inglês, devido a sua amplitude internacional), reúne os principais empresários das Três Fronteiras em torno do desenvolvimento turístico da região. O mais recente trabalho é um completo inventário sobre a fronteira, que já tem um mapa concluído.
FolhaO que é o Pólo Turístico Iguaçu?
Faisal SalehA região trinacional do Iguaçu é considerada pelo Mercosul um tema prioritário de discussões dentro das Reuniões Especializadas de Turismo (RETs). O Pólo Turístico Internacional Iguaçu abrange uma megacidade com cerca de 600 mil habitantes, que inclui seis municípios: Foz do Iguaçu, no Brasil; Puerto Iguazú, na Argentina e Ciudad del Este, Presidente Franco, Minga Guazú e Hernandárias, no Paraguai. Essa conformação já é reconhecida e aceita dentro do Mercosul como uma região trinacional de interesse turístico. Nossa entidade, o Instituto Pólo Internacional Iguaçu, sempre atuou fortemente no Mercosul, para dar subsídios nas reuniões especializadas. Hoje somos reconhecidos como um órgão de apoio do Subcomitê Técnico do Pólo Iguaçu, que leva as discussões às RETs e, depois, ao Grupo Mercado Comum, onde as decisões são transformadas em leis. A partir de estudos técnicos, procuramos criar ferramentas para que a região possa se integrar.
FolhaComo é a estrutura do instituto?
SalehSomos uma ONG (organização não-governamental), mantida por meio de doações dos empresários que a integram.
FolhaNão há interesses conflitantes entre os três países que compõem a entidade?
SalehA partir da assinatura do Tratado de Assunção (que criou o Mercosul, em 1991), os países-membros passaram a buscar uma identidade comum e alternativas integradas para a relização de negócios e, com isso, enfrentar os grandes blocos econômicos mundiais. O turismo se insere nessa proposta. Junto com outras regiões, o Pólo Turístico Internacional Iguaçu tende a ser um projeto de identificação do Mercosul.
FolhaA integração desse núcleo trinacional enfrenta muitas barreiras?
SalehO Instituto Pólo Internacional Iguaçu nasceu com a intenção de romper com a idéia de que as linhas de fronteira são paredes intransponíveis. Muitas vezes, os interesses de uma cidade se chocam com os interesses da outra, apesar de elas formarem uma grande cidade trinacional, com interdependências profundas. Mas a região precisa buscar formas de evitar esse choque entre as culturas e as legislações de cada país. Aí está a importância de se aglutinar as lideranças da região para que, independente dos aspectos culturais e das prioridades de cada cidade-parte, exista um modelo que possa integrar todas elas, já que têm uma vocação única, que é o turismo.
FolhaAs leis de cada país não atrapalham essa integração?
SalehConstatamos, por meio de pesquisas, que é clara a posição de cada cidadão da região trinacional de que é necessária a facilitação da vida nessa região. Todos concordam que a vida na fronteira é muito complicada quando é definida, fiscalizada e determinada por instâncias federais que, muitas vezes, não conhecem o meio de vida da região. É preciso que o cidadão da fronteira não seja visto como um marginal, como vem acontecendo nos últimos anos. No momento em que as autoridades tiverem a capacidade de entender a região trinacional e a utilizarem como um laboratório para as questões de integração, elas conseguirão resolver os problemas da região e terão parâmetros para desenvolver ações em qualquer área de fronteira no Mercosul ou na América Latina.
FolhaEntão é preciso unificar leis e procedimentos na Tríplice Fronteira?
SalehIsso é fundamental. Temos que ter um tratamento especial em relação a outras fronteiras do Mercosul, até porque nenhuma outra região é tão integrada internacionalmente como a nossa.
FolhaQuais são os principais trabalhos já feitos pelo instituto?
SalehHá dois anos, pagamos a realização de uma pesquisa internacional para apontar as perspectivas de futuro dos cidadãos da região trinacional, que mostrou que eles sempre se chocam com a legislação de um país ou de outro. Esse tema foi levado à discussão em encontro das Nações Unidas sobre população, realizado na Turquia. Além disso, somos membro do Plano de Desenvolvimento Integrado e do Conselho Municipal de Turismo de Foz do Iguaçu. Trouxemos para a região o Eurocentro, um escritório on line com 240 câmaras de negócios e comércio da União Européia. Temos um projeto que vai estudar 27 indicadores de qualidade de vida da região, como mortalidade infantil e materna, taxas de escolarização, saneamento e criminalidade. Participamos da organização dos Jogos Mundiais da Natureza e do Projeto Costa Oeste. Estamos fazendo um elo de ligação para que o Paraguai crie o seu ‘‘Projeto Costa Leste’’, de aproveitamento turístico de sua margem do Lago de Itaipu. Agora, estamos concluindo um inventário da região trinacional, com o mapeamento que mostra coordenadas geográficas, limites, estrutura urbana, rede hidrográfica. Esse inventário servirá como material de pesquisa, já que visualisa um pólo de atração de investimentos e perspectivas de desenvolvimento no turismo e em outras áreas.

PERFIL
Nome:
Faisal Saleh
Idade:
38 anos
Onde nasceu:
Ponta Grossa
Estado civil:
casado, tem 2 filhos
Ocupação:
empresário em Ciudad del Este
Cargo atual:
presidente do Instituto Pólo Internacional Iguaçu

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