Fronteira do Brasil com Paraguai tem 300 portos clandestinos
Balanço é do BPFron, que mapeia a região Oeste, entre o marco das três fronteiras e Guaíra
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Balanço é do BPFron, que mapeia a região Oeste, entre o marco das três fronteiras e Guaíra
Laís Taine - Grupo Folha 

O tráfego ilegal de armas, drogas e produtos de contrabando e descaminho contam com o "apoio" de aproximadamente 300 portos clandestinos no Rio Paraná. O número foi identificado pelo BPFron (Batalhão de Polícia de Fronteira), da Polícia Militar do Paraná. Desde 2012, o batalhão mapeia a região, entre o Marco das Três Fronteiras e Guaíra (Oeste), contabilizando os arroios, afluentes e ilhas, na fronteira hídrica com o Paraguai. A unidade comenta que as quadrilhas investem em olheiros para tentar burlar as ações da polícia. Para especialista, o problema é um reflexo da falta de políticas públicas de segurança em todo o País.
De acordo com as informações divulgadas pelo BPFron, os portos estão situados em acessos feitos na mata ciliar do lago de Itaipu e afluentes e fazem divisa com várias propriedades rurais. “O BPFron faz a fiscalização mas, de modo geral, o acesso ao lago não dispõe de qualquer controle ininterrupto. As quadrilhas especializadas na atividade de contrabando e tráfico, que utilizam o lago, investem significativamente em olheiros e batedores para tentar burlar as ações de repressão da polícia”, diz a nota enviada pela PM.
Outro obstáculo colocado pela unidade é a dimensão da fronteira. A Itaipu Binacional tenta colaborar com as forças de segurança pública fornecendo informações e fechando portos clandestinos, mas para o presidente do Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), Luciano Stremel Barros, a situação é alarmante pela dificuldade de combate.
“A cada minuto, uma pessoa pode abrir um porto. A polícia interdita, mas daqui a 15 dias ela abre um novo a 50 metros. Isso é preocupante”, afirma Barros, mencionando os prejuízos que esses crimes causam à economia brasileira. Somente no ano passado, foram R$ 160 bilhões perdidos pela indústria.
O presidente também comenta outra situação: os criminosos contam com a cumplicidade do rio para desfazer das cargas em caso de risco de abordagem policial. “É uma questão ambiental também. Quando a polícia está fazendo a vigilância, o criminoso dispensa o carregamento no lago. E se aquilo for agroquímico? As cidades à margem do lago se abastecem dessa água”, aponta.
COMUNIDADE
A pesquisadora de criminalidade e violência nas fronteiras do Brasil, Letícia Nuñez Almeida, comenta que há muitas questões envolvidas neste tipo de crime, como corrupção de oficiais, participação dos proprietários rurais e da própria comunidade.
No início do mês, um homem foi morto em confronto com militares do Exército ao tentar atravessar o rio com produtos ilegais. Após o ocorrido, moradores da região de Guaíra se manifestaram pedido paz e liberdade para se trabalhar no Rio Paraná.
“Normalmente são regiões pouco desenvolvidas, a grande maioria das pessoas que mora ali vive de pequenos contrabandos, dessas iniquidades de câmbio: um país tem a gasolina barata, outro tem a comida, e a população vive dessas negociações, o que gera muito emprego informal”, afirma a pesquisadora, que é professora da Universidade de La República, no Uruguai.
No entanto, Almeida ressalta que o maior problema não está nas pequenas quantidades ou no trabalho de sacoleiros, mas em crimes em níveis mais expressivos, como contêineres de produtos ilegais, que vão desde descaminhos e contrabandos ao tráfico de drogas e armas. Intermediações que, segundo ela, poderiam ser controladas com política pública. “Não estou falando de colocar Exército e policiamento na fronteira, isso já existe, mas um trabalho de inteligência”, indica.

OPERAÇÕES
O BPFron destaca que a fronteira tem dimensões geográficas significativas, mas que vem atuando de forma inteligente e com integração para coibir atividades criminosas. A unidade atua na Operação Hórus, coordenada pela Seopi (Secretaria de Operações Integradas), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Desde o início em abril até a primeira quinzena de agosto, foram retirados de circulação: 33 embarcações, 77 veículos, mais de 9 milhões de pacotes de cigarros, além de 31,1 toneladas de drogas. Com essas ações, os criminosos tiveram prejuízos de R$ 53 milhões. A unidade também faz parte da Operação Obturação, que também combate o crime na fronteira.


