Dourados - Antes de se dissiparem ao longo de um dia quente de verão, as nuvens fechavam o horizonte na faixa de fronteira do Brasil com o Paraguai pela manhã, quando a reportagem teve a autorização para conhecer as dependências da 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, na próspera Dourados, município de 207 mil habitantes no Sudoeste do Mato Grosso do Sul, distante cerca de 120 quilômetros de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero.
O quartel é uma estrutura grandiosa, cuja área de abrangência engloba toda a porção sul do vizinho mais vasto e desabitado do Paraná. É lá que se concebe o mais ambicioso projeto militar do País, que ainda nesta década deve se esparramar também pela faixa oeste do Paraná, começando por Guaíra.
O céu se abrindo durante o dia na região é praticamente uma metáfora às avessas do que significa o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteira (Sisfron). Com ele, o Exército pretende usar toda a tecnologia disponível no século 21 para fazer os limites do Brasil serem vigiados como nunca foram antes.
O projeto, que ainda luta contra a chance de cortes no Orçamento federal, tem a responsabilidade de "fechar" uma das maiores fronteiras do mundo, com quase 17 mil quilômetros, do Rio Grande do Sul ao Amapá, do Uruguai ao território francês da Guiana. Legalmente, a faixa de fronteira tem 150 quilômetros de largura e abrange 27% do território nacional. O objetivo principal do Sisfron é, de acordo com nota do Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSex), apoiar as tomadas de decisões e as atuações operacionais, "cujo propósito é fortalecer a presença e a capacidade de ação do Estado na faixa de fronteira".
No quartel em Dourados, pouco do que se vê remete ao megaprojeto em gestação. Os militares continuam vivendo uma rotina dura na unidade, que fica na Avenida Guaicurus, trecho urbano da MS-162. Os oficiais são solícitos, mas não falam muito sobre o que está de fato acontecendo ali por questões hierárquicas ou estratégicas. Ao percorrer a unidade, apenas um prédio em construção chama a atenção. Trata-se da estrutura onde irá funcionar um dos centros de operações do novo sistema. Além disso, de acordo com o tenente-coronel Silvio Roberto Nema Areca, um dos anfitriões da equipe de reportagem, a brigada ganhará 26 viaturas para viabilizar o piloto. A frota vai ser constituída aos poucos, conforme o ritmo de liberação de recursos. "O piloto se destina, entre outras finalidades, a avaliar, reajustar e refinar as definições iniciais do sistema, possibilitando a sua implementação, de forma adequada e eficiente, no restante do País", explica a comunicação oficial do Exército.
De acordo com o projeto básico, elaborado no início da década, o período de implantação do Sisfron é de uma década e deverá estar em plena operação só em 2021.O orçamento é bilionário e deverá ser implantado pela Savis, uma subsidiária da Embraer. O investimento no desenvolvimento em tecnologia, equipamentos, treinamento e novas instalações consumirá cerca de R$ 12 bilhões no período. A parafernália de monitoramento inclui câmeras, sensores, radares e vants (veículos aéreos não tripulados).
O CCOMSex promete que a implantação terá impacto na indústria nacional, com a geração de 12 mil empregos anuais, dois terços deles no setor de tecnologia, com os esforços de desenvolvimento de componentes, subsistemas e softwares.
Para que as informações trafeguem no âmbito do Exército, que fica responsável em repassar as informações para as forças de segurança regulares, está sendo constituída uma infovia.
Uma fonte de uma das empresas que executa as primeiras obras informou que somente na primeira fase serão 56 torres espalhadas pelo Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, que serão instaladas em imóveis públicos, como escolas ou postos de saúde. Apenas duas delas já estariam construídas na região de fronteira, mas a localização segue em sigilo. A segunda fase do Sisfron inclui o Paraná (exceto Guaíra, incluída na primeira fase e onde o projeto chega em 2016), Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Na última fase, o projeto fecha a fronteira do Norte do País.
Oficialmente, o cronograma prevê a implantação de dois centros de operação no Paraná ainda este ano, provavelmente em Guaíra e Cascavel. O Exército também informou que haverá a aquisição de embarcações de vigilância, viaturas e radares.

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