Santiago, 06 (AE) - O ex-secretário de política Econômica e atual chairman do Dresdner Bank Brasil, Winston Fritsch, considerou hoje um "milagre" a reação brasileira aos impactos da desvalorização do real e sugeriu aos argentinos abandonarem o estrito regime de conversibilidade por uma política de livre flutuação. Sua declaração foi feita em palestra na quinta Cúpula Econômica do Mercosul, organizada pelo World Economic Forum.
De acordo com Fritsch, a mudança cambial no País não provocou os impactos previstos sobre sobre o Produto Interno Bruto e muito menos sobre a inflação. "A inflação de 50% que alguns previam está em 5% (anualizada até abril); a taxa de câmbio, que havia disparado para R$ 2,20, caiu para um patamar entre R$ 1,60 e R$ 1,70 por dólar; e a queda esperada de 4% a 5% do PIB deve ser bem menor do que isso", explicou Fritsch.
Ele atribui essa reação a quatro fatores: o acordo entre o governo e o Congresso para aprovar a maior parte do ajuste fiscal; a aceitação de Armínio Fraga para a presidência do Banco Central por parte do mercado; o acordo de contingência com o Fundo Monetário Internacional; e à queda e, depois, ao controle da inflação.
"Essa reação foi uma lição e um fato novo na América Latina e mostra que aqueles países que tiveram inflação crônica no passado não necessariamente voltarão a essa situação com uma mudança na política cambial", afirmou. Para ele, esse "milagre" deve ser visto com muita atenção pelos argentinos.
"Enfrentamos alguns riscos, mas com sucesso", argumentou Fritsch em palestra para uma platéia formada por empresários e economistas argentinos, além de funcionários do governo Menem. O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, preferiu não chamar de "milagre" a reação brasileira, mas de um fato concreto com medidas que serviram para enfrentar a crise.
Para Iglesias, outro fator que favoreceu a recuperação foi o baixo endividamento das empresas privadas brasileiras (35% do PIB), comparado com os 160% do setor na ásia durante a crise de 1997. "Sempre acreditei nessa recuperação, embora os riscos tenham sido altos. Mas é necessário avançar ainda mais nas reformas estruturais", disse o presidente do BID.
Para Fritsch, a desvalorização do real foi positiva tanto para o Mercosul como para a América Latina. "O grande medo dos argentinos é que qualquer mudança no regime cambial implique alta inflação, mas o Brasil provou que isso não necessariamente pode ocorrer", disse Fritsch.
Para ele, a Argentina terá, um dia, de fazer um ajuste que não tenha como base apenas o "aumento do desemprego". "Fala-se muito em aprofundar a integração no Mercosul, a exemplo do modelo europeu, mas é bom lembrar que, para isso, há um estágio pelo qual precisamos passar, que é o de uma convergência cambial e o mais correto seria uma flutuação conjunta", sugeriu Fritsch. Para ele, é impossível pensar em uma convergência de políticas macroeconômicas com regimes cambiais diferentes.
Fritsch explicou ainda que o sistema argentino, adotado por um período na Europa, foi abandonado por causa dos altos custos nos ajustes, feitos geralmente com o aumento do desemprego. Para ele, a desvalorização do real provocou uma pressão temporária sobre o Mercosul, mas isso ficará diluído em poucos meses com o crescimento esperado para o Brsail já no final do segundo semestre deste ano. "A desvalorização foi um processo de ajuste que todo país precisa", disse Iglesias ao encerrar a sessão sobre "os impactos do Brasil na América Latina".

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