Seattle, 03 (AE) - Harry Freeman, o ex-alto funcionário da American Express Company que comandou uma campanha de difamação contra Edmond Safra, num escândalo emblemático da história de Wall Street nos anos 80, lamentou hoje a morte do banqueiro. "É claro que eu sinto a morte dele, especialmente pela maneira violenta como aconteceu", disse Freeman. "Eu lamentaria o assassinato de qualquer pessoa nessas circunstâncias".
Freeman, que perdeu o emprego por causa de suas ações contra Safra, tem hoje sua própria consultoria especializada em lobby em favor da liberação do comércio, razão pela qual está em Seattle acompanhando a reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC). Com o mundo financeiro ainda sob o choque da notícia do assassinato de Edmond Safra, uma porta-voz do Republic New York Corp. disse hoje que a morte do banqueiro não interferirá na efetivação da compra da empresa pioneira que ele fundou nos anos 60 pelo HSBC Holdings. A transação, avaliada em US$ 10,3 bilhões quando foi anunciada no começo do ano, obteve o sinal verde da agência reguladora de bancos do Estado de Nova York na quinta-feira e deverá receber a autorização final do Federal Reserve Bank of New York em reunião marcada para a semana que vem.
Analistas e outras fontes do mercado disseram, no entanto, que as investigações sobre a morte de Safra, numa aparente operação de sequestro que deu tragicamente errado, poderá levar a um adiamento da conclusão do negócio, que estava prevista para o fim do ano.
A dúvida óbvia, que os investigadores terão de elucidar, é se o ataque contra o apartamento de Safra, em Mônaco, tem alguma ligação com o escândalo de fraude numa divisão de títulos no mercado futuro do Republic, que o próprio banco vem investigando desde setembro.
O caso envolve operações realizadas em nome de um cliente, Martin A. Armstrong, dono da firma de investimentos Princeton Economics International e de outras empresas. Armstrong foi formalmente acusado pela justiça federal americana em outubro de ter desviado US$ 950 milhões de investidores japoneses.
O caso já havia provocado uma renegociação dos termos da venda do Republic. Nas últimas semanas, Edmond Safra havia aceitado diminuir sua fatia na venda do Republic, de US$ 3,2 bilhões para US$ 2,75 bilhões, e concordado em pagar até US$ 180 milhões de seu próprio bolso de uma indenização de US$ 700 milhões na hipótese de o inquérito interno do banco provar que as operações envolvendo Armstrong causaram prejuízo aos acionistas.
A venda do Republic ao HSBC foi acertada ao valor de US$ 72 por ação. Embora a perspectiva de comprar o Republic por um preço menor seja atraente para os acionistas do HSBC, a preocupação maior entre eles é que um adiamento da conclusão da aquisição, provocada pelas investigações da morte de Safra e pelo inquérito interno sobre o caso Armstrong levem a uma nova renegociação de toda a transação.
A possibilidade de o ataque que tirou a vida de Safra ter sido parte de uma conspiração maior não deve ser afastada, pela simples razão de que o banqueiro foi vítima, no passado, de uma trama montada no topo de uma das maiores empresas de Wall Street para caluniá-lo. O episódio ocorreu nos anos 80, depois que azedou a fusão de uma empresa de Safra, o Trade Development Bank, baseado em Genebra, com a American Express Company.
A disputa foi provocada pelas tentativas do então presidente da Amex, James Robinson III, de usar a associação com Safra para atrair os clientes de Safra para a Amex. O negócio foi finalmente desfeito em 1988. Safra processou Robinson, Freeman e a Amex por causa da campanha de calúnias que a companhia americana desencadencadeou contra ele, em meios aos desentendimentos dos anos anteriores. O caso, que seria mais tarde relatado no livro "Vendetta", de Brian Burrough, foi resolvido por um acordo, em 1989, pelo qual Robinson pediu desculpas a Safra e aceitou pagar US$ 8 milhões para obras beneméritas da escola do banqueiro. Freeman perdeu o emprego e, pouco tempo depois, o próprio Robinson deixou a presidência da Amex.

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