Fraudes ameaçam eleições na Argélia
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sexta-feira, 09 de abril de 1999
Por Reali Júnior, Correspondente 
Paris, 10 (AE) Sete candidatos disputam a eleição presidencial de quinta-feira na Argélia. Esse país tem chances de conhecer um período de paz e iniciar uma fase de consolidação democrática, mas essa expectativa poderá ser frustrada por um processo eleitoral fraudulento.
Esse é o aspecto que mais preocupa a classe política argelina, depois de não ter sido levado em conta o apelo para que o processo eleitoral pudesse ser acompanhado por observadores internacionais. Isso apesar de o apelo ter sido feito por um dos principais candidatos, o socialista Hócine Ait Ahmed, dirigente histórico da revolução, atualmente internado num hospital suíço por causa de um mal-estar cardíaco durante a campanha.
Hoje, o conflito em Kosovo monopoliza a atenção da opinião pública internacional e não mais os massacres perpetrados por grupos radicais muçulmanos e paramilitares contra a população mais pobre da Argélia.
Mesmo a França, neste momento, parece só ter olhos para os Bálcãs, apesar de 680 mil dos 780 mil eleitores argelinos que vivem no exterior terem começado a votar neste fim de semana em todo território francês, onde se concentra a maior parte da população expatriada da Argélia.
Este é o momento político mais importante da Argélia nos últimos anos, quando os militares que fracassaram na tentativa de normalização interna admitem um processo de transição, devolvendo o poder aos dirigentes civis após uma guerra civil das mais sangrentas.
Todos os sete candidatos defendem a "reconciliação nacional", anunciando objetivos que, se atingidos, devem contribuir para encerrar o ciclo da violência que desde 1992 penaliza fortemente o desenvolvimento desse país exportador de petróleo e membro da Opep.
Entre os candidatos, o grande favorito é Abdelaziz Bouteflika, de 64 anos, que foi ministro do Exterior por 16 anos, desde os tempos de Houari Boumediénne. Depois de ter sido apresentado como um dos prováveis sucessores do coronel Boumediénne, caiu em desgraça entre os militares.
Graças a sua habilidade de negociador, Bouteflika conseguiu atravessar o purgatório, ressurgindo agora como o candidato mais temido por seus adversários e contando com o apoio de fortes correntes militares e dos quatro principais partidos.
Ele poderá ser eleito já no primeiro turno, dependendo da participação do eleitorado. Se ela for elevada, dificilmente Bouteflika poderá deixar de realizar o sonho que alimenta há anos. Ele conta também com forte apoio da mídia argelina, além de ter conservado durante todos esses anos inúmeros contatos no exterior, principalmente em certos países europeus.
A grande dúvida, que pode ser um fator decisivo desse pleito, é qual será a repartição dos votos dos integristas muçulmanos. Apesar de um dos candidatos, Abdallah Djaballah, de 44 anos, reivindicar abertamente esses votos, assimilando suas posições, um dos excluídos dessa competição, o muçulmano moderado Mafhoud Nahnah, lançou um apelo em favor de Bouteflika.
Uma grande parte dos integristas poderá votar também em Ahmed Taleb Ibrahim, apoiado pela Frente Islâmica de Salvação (FIS). Se ocorrer uma forte divisão dos votos integristas, a candidatura Bouteflika será favorecida. Uma fraca participação eleitoral facilitaria a passagem para o segundo turno de Ibrahim, principal adversário de Bouteflika, e também ex-ministro de Boumediénne.
Os institutos de pesquisa, pouco confiáveis na Argélia, tornam apenas relativo o favoritismo desses dois candidatos. Até que ponto esses anos de violência e de atentados sangrentos perpetrados pelos grupos terroristas e paramilitares afastaram ou não o eleitorado dos integristas, maciçamente sufragados no pleito de dezembro de 1991, posteriormente anulado?
Desde aquela época, nenhum outro pleito argelino pode servir de referência democrática pela forma como foram organizados para manter os militares no poder. Por isso, apesar de os observadores apontarem o favoritismo de Bouteflika, apoiado pela Frente de Libertação Nacional, pela Reunião Democrática Nacional, pelo partido fundamentalista Nahdah e pelo Movimento da Sociedade para a Paz, a resposta definitiva será dada nas urnas.


