Rio, 23 (AE) - O ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Franco e outros integrantes da direção da autarquia poderão ser responsabilizados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos por causa da contratação, pela instituição, da Macrométrica - consultoria que tem, entre os sócios, a mulher do ex-presidente do banco, Francisco Lopes, Araci Pugliese. Segundo o senador Saturnino Braga (PSB-RJ), é, no mínimo, uma irregularidade a autarquia ter contratado a empresa, enquanto Chico Lopes, marido de uma das controladoras, era dirigente do BC, mesmo que ele não tenha tido nenhuma participação na contratação.
"A CPI vai ter de esclarecer isso", disse o parlamentar, que hoje passou o dia no Rio à espera da decisão da juíza da 6ª Vara Federal, Ana Paula Vieira de Carvalho, sobre o pedido de quebra de sigilo de cinco envelopes lacrados encontrados em diligências da Polícia Federal (PF) sobre caso. Em tese, o procedimento de Chico Lopes e de outros dirigentes do BC poderia ser classificado como tráfico de influência, advocacia administrativa e improbidade.
A Macrométrica distribuiu hoje nota à imprensa em que não se referiu ao BC, mas afirmou ter mais de cem clientes e manifestou esperar que a Justiça apure "todos os fatos veiculados". "O linchamento público, a violação do princípio da ampla defesa e o esmagamento dos direitos fundamentais são marcas de um Estado totalitário, não sendo o caso de nosso País, que proclama, no artigo 3º de sua Constituição Federal, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, como fundamento republicano", afirma o texto.
Para Braga, a inexistência, na declaração de Imposto de Renda (IR) de Chico Lopes, de menção aos US$ 1,675 milhão mantidos pelo economista no exterior, em nome do ex-sócio Sérgio Luiz Bragança, é um indício do crime de sonegação fiscal.
Segundo ele, o documento mostra apenas um cidadão de classe média, com padrão de vida sem extravagâncias, não- condizente com alguém que, segundo documento assinado encontrado nas operações da PF, teria tanto dinheiro.
Outro ponto que Braga quer esclarecer é a participação da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) nos episódios que antecederam o socorro do BC aos Bancos Marka e FonteCindam, em janeiro. "A BM&F não poderia permitir que o Marka ficasse tão alavancado (com compromissos a saldar muito acima do seu patrimônio) e com garantias tão baixas", disse o parlamentar.
"Tinha de bancar os prejuízos, já que é auto-regulamentada." O senador lembrou que a legislação não intervém na BM&F por pressupor a independência dela.
"Mas, na hora H, a BM&F não quis bancar e correu para o Banco Central", disse Braga. Segundo o parlamentar, a BM&F, quando aconteceu a crise, deveria ter coberto os prejuízos com as garantias, e o BC "nunca poderia ter" atendido ao pedido da bolsa para que socorresse instituições em dificuldades.
O relator da CPI, senador João Alberto Souza (PMDB-MA), que hoje voltou para Brasília, disse terem sido encontrados indícios de que o Marka fez operações em outros países por intermédio de "laranjas" (que serviram de fachada para os verdadeiros titulares). O parlamentar afirmou que a informação lhe foi passada por técnicos da CPI que participaram da triagem do documento.

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