Rio, 05 (AE) - O ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes rejeitou hoje a acusação de ter favorecido os Bancos Marka e Fonte-Cindam nas operações de venda de dólar do BC para os dois bancos, por R$ 1,27 e R$ 1,32, dois dias antes da mudança na política cambial.
Para realizar as duas operações, no dia 14 de janeiro, Chico Lopes não consultou seus superiores, o ministro Pedro Malan e o presidente Fernando Henrique Cardoso, por considerar que agiu dentro das regras e deveres do Banco Central.
Lopes não confirma o prejuízo de US$ 200 milhões para o País e discorda do atual presidente do BC, Armínio Fraga, que incluiu as duas operações no Proer, programa de socorro aos bancos privados, e declarou que o dinheiro utilizado pelo BC para vender os dólares saiu do bolso do cidadão comum, tratando-se, portanto, de dinheiro subsidiado aos dois bancos. "Não dá para comparar as operações daquele dia com o Proer e tampouco com o que aconteceu depois, quando o governo decidiu deixar o cambio flutuar; aí a história mudou", argumentou.
As duas operações, explica Chico Lopes, foram fechadas com os dois bancos na quinta-feira, dia 14 de janeiro, quando o governo ainda tentava instituir o novo regime de bandas engendrado por Chico Lopes. Como o mercado não aceitou o novo câmbio, no dia seguinte o presidente da República decidiu retirar o BC do mercado, não mais vender dólares das reservas cambiais e deixar a taxa flutuar.
Portanto, quando o BC negociou com os dois bancos, a política do governo, lembra Chico Lopes, ainda era de defender o real, com o BC vendendo dólares das reservas. "Nesse dia 14 de janeiro", conta Chico Lopes, "a Bolsa Mercantil & de Futuros (BM&F) havia definido uma taxa máxima de R$ 1,25, mas o mercado ficou sem liquidez, ou seja, ninguém vendia dólares."
Segundo ele, havia bancos em posição vendida e a situação mais grave era do Marka, que tinha 12 mil contratos, e do Fonte-Cindam. Outros bancos em posição vendida honraram seus compromissos com a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F).
Carta - "Então, a bolsa nos enviou uma carta - que está arquivada no BC - solicitando ao BC que agisse para evitar uma grave situação de inadimplência no mercado futuro de câmbio", contou Lopes. "O papel do BC é evitar riscos sistêmicos e uma crise de inadimplência na bolsa, naquele momento difícil, teria um efeito extremamente grave sobre a credibilidade do mercado de câmbio."
Para Lopes, "a saída do BC foi dar liquidez ao mercado, vendendo dólares a futuro às duas instituições". Só os 12 mil contratos do Marka, calcula por alto o ex-presidente do BC, significavam US$ 1 bilhão. A equipe do diretor de Fiscalização do BC, Claudio Mauch, foi negociar com os dois bancos.
Pressão - "Operamos sob enorme pressão", relata Chico Lopes. "Tínhamos pela frente o desafio de mudar o regime cambial e tomar decisões urgentes, do tipo faz ou não faz. Ao decidir fazer, partimos para definir com que taxa de câmbio operar com os dois bancos", lembrou o ex-presidente do BC. "A BM&F havia limitado a taxa a R$ 1,25, o piso do banda era R$ 1 20 e o teto R$ 1,32; foi uma negociação muito difícil com o Marka, mas acabamos fechando em R$ 1,27, taxa que só esperávamos alcançar no fim de janeiro." No caso do Fonte-Cindam, disse, "negociamos com a taxa do teto, R$ 1,32".
Lopes garante que todo o histórico e documentação das duas operações estão em poder do BC e podem ser consultados para provar a lisura do BC. As negociações foram de responsabilidade do então diretor de Fiscalização, Claudio Mauch, mas foram aprovadas pelo colegiado do BC, depois de sucessivas consultas ao Departamento Jurídico do banco. "Não participei diretamente porque tinha outras coisas mais importantes com que me preocupar", afirma.
Ele considera "surrealista" a história contada pela revista "IstoÉ" desta semana. "Como estou envolvido com o banco e o banco quebrou? Isso não tem lógica; não dá para levar à sério", comenta. Ele confirma não conhecer o presidente e principal acionista do Marka, Salvatore Alberto Cacciola.
Quanto a Francisco de Assis Moura de Mello, outro acionista, Chico Lopes diz ter conversado com ele algumas vezes, na sede do BC, no Rio. "Costumava reservar as sextas feiras para ouvir o mercado; isso é muito útil para os dirigentes do BC".

mockup