Tasso Marcelo/Agência EstadoIndefectívelOs amigos que estiveram no velório do jornalista Paulo Francis puderam vê-lo como ele sempre gostava de se apresentar em público: óculos de grau e vestido com terno preto bem cortadoRIO - O corpo do jornalista Paulo Francis foi sepultado ontem à tarde no cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul do Rio, sob uma chuva de pétalas de rosas jogadas de um helicóptero. Por exigência da mulher de Francis, a também jornalista Sônia Nolasco, os amigos que estiveram no velório puderam vê-lo como ele sempre gostava de se apresentar em público: com o indefectível óculos de grau e vestido com terno preto bem cortado. Francis morreu de infarto terça-feira em Nova York aos 66 anos.
No velório realizado na capela 2 do cemitério, estiveram o empresário Roberto Marinho, os jornalistas Augusto Nunes, Daniel Piza (autor da coletânea do livro Waal, último de Francis), Ruy Castro, o produtor cinematográfico norte-americano Harry Jones, os editores Luiz Schwartz e Jorge Zahar, os poetas Ferreira Gullar e Affonso Romano Sant’Anna, o deputado federal Roberto Campos (PPB-RJ), entre outros. Dos amigos da época de Pasquim, foram ao enterro os cartunistas Ziraldo, Millôr Fernandes, e o jornalista Sérgio Augusto. Os jornalistas Nélson Motta, Caio Blinder e Lucas Mendes, companheiros de Francis no programa Manhatan Conection, chegaram ao cemitério pouco antes do enterro.
Paulo Francis foi sepultado no jazigo da família Heilborn, onde, coincidentemente, no mesmo dia 7 de fevereiro, há 25 anos, foi enterrado seu pai, o comerciante Adolfo Luiz Heilborn. No velório, os amigos lembravam com carinho de Francis. E um assunto que dominou as conversas era o processo movido pela Petrobrás contra o jornalista. Se perdesse, ele seria obrigado a pagar U$ 100 milhões à empresa.
Para Augusto Nunes, ‘‘Francis foi um jornalista de combate, independente, e a ação da Petrobrás o abalou porque ele achava que poderia ser condenado’’. Ruy Castro disse que, ‘‘se isso for verdade, será mais um crime da Petrobrás’’. O editor Jorge Zahar, amigo íntimo do jornalista, contou que ele estava preocupado principalmente com o custo dos advogados. Renato Machado também se mostrava indignado com o processo movido pelo presidente da estatal, Joel Rennó, que anteontem teria sido procurado por Nélson Mota, outro grande amigo de Francis. ‘‘O processo estava sendo analisado pela Corte de Nova York e certamente seria julgada sua ilegitimidade’’, disse no velório o advogado de Francis, Paulo Mercadante.
Para Sérgio Augusto, o caso da Petrobrás não deve ser superestimado. ‘‘Se alguém fizer discurso, o Francis é capaz de se levantar, dizer bullshit (um insulto em inglês) e ir embora’’. O cartunista Ziraldo lembrou que conheceu Francis em 1957 num almoço com Jaguar. ‘‘Tinha vindo de Minas e fiz tantas perguntas que ele se virou para o Jaguar e perguntou: ‘quem é esse idiota?’’’.
Blinder, alvo predileto de Francis no programa Manhatam Conection, ressaltou que o embate se tratava de ‘‘uma polêmica inteligente’’. Ele disse que Francis estava irritado com os gastos resultantes do processo da Petrobrás, mas não acredita que isso tenha sido tão relevante. Nélson Motta comparou Francis a ‘‘um mestre, um irmão mais velho’’. Millor Fernandes só conseguiu dizer uma palavra: ‘‘Acabou’’.
O corpo de Paulo Francis chegou ao Aeroporto Internacional do Rio às 10h10 numa urna de zinco lacrada no vôo 825 da Varig, procedente de Nova York. Ás 10h27, a viúva Sônia Nolasco, desconsolada, desembarcou, amparada pelo cônsul do Brasil em Nova York, Marcos de Vincenzi e pelo médico Jesus Cheda. A missa de sétimo dia será realizada dia 13 no Colégio Santo Inácio, no Rio, onde o jornalista estudou. O enterro foi preparado em três dias, e Francis foi sepultado em caixão importado de cerejeira escura forrado com cetim branco.

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