Rio, 19 (AE) - Uma comissão de 33 franceses, entre eles um bispo e cinco padres, chegou hoje à Vitória, no Espírito Santo, para pressionar a Justiça a tratar o assassinato do padre francês Gabriel Maire, em 1989, como crime político. O caso está sendo julgado como latrocínio - assalto seguido de morte -, apesar de laudo de peritos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) descartar a hipótese. Três testemunhas, o advogado de defesa dos supostos assassinos e um dos acusados foram mortos durante as investigações do crime.
Essas mortes são atribuídas a um político e a um empresário da cidade de Cariacica, na Grande Vitória, que teriam ligações com a Scuderie Detetive Le Cocq, grupo de extermínio paramilitar que atua no Estado.
"O caso jamais poderia ser julgado por um júri singular
havendo duas versões - latrocínio e crime de mando", afirma o advogado da família Maire, Everton Montenegro, que impetrou liminar pedindo a transferência do processo para o Tribunal do Júri.
Gabriel Maire deixava o bairro Castelo Branco, na noite de 23 de dezembro de 1989, quando foi cercado por dois carros, dominado por cerca de oito homens e colocado no banco traseiro do Fusca que dirigia.
O corpo reapareceu em outro ponto da cidade, com um tiro no peito e ocupava o banco do motorista, simulando um assalto, apesar de nada ter sido roubado. Maire participara de amplo movimento contra a cassação do então prefeito de Cariacica,Vasco Alves, em junho de 1989, e também era ligado a movimentos sociais.
O sequestro foi testemunhado pelo casal Jessé e Maria das Graças de Araújo, e os três filhos, mas antes que depusessem em juízo, um grupo de policiais civis e militares invadiu a casa em que moravam. Maria das Graças foi morta a golpes de machado. Jessé e a filha de dois anos levaram tiros de escopeta. As outras crianças, com 8 e 9 anos, escaparam e reconheceram os assassinos.
Nilson Ferreira Celestino e os irmãos Fábio e Flávio Nascimento da Silva foram acusados de assaltar e matar padre Gabriel. Uma comissão federal seguiu para o Espírito Santo a fim de investigar o caso, em 1995, mas três dias antes da chegada dos policiais, Fábio escapou da prisão e foi fuzilado ao supostamente tentar escapar de um cerco policial.
Os quatro policiais que o perseguiam são filiados à Scuderie Detetive Le Cocq. Também pertence à organização o delegado federal Pedro Tanus Rejane, que presidiu o inquérito policial depois que a Polícia Civil foi afastada do caso, sob suspeita de má-condução das investigações.
Montenegro conta que durante o julgamento dos três acusados, o advogado de defesa Carlos Batista de Freitas reconheceu que a perícia da Unicamp estava correta ao afirmar que Maire não fora vítima de assalto. Freitas desapareceu após a audiência.
O bispo da diocese de Saint Claude, Yves Patenotre, cinco padres, uma freira e 26 integrantes da associação francesa de amigos do padre Gabriel vão se reunir com o governador José Ignácio Ferreira (PSDB) e com a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assemléia Legislativa para discutir o caso, na próxima quarta-feira. "Gabriel era ligado a movimentos populares e por isso foi executado; queremos que o processo seja reaberto e a justiça seja feita", afirmou um padre francês que não se quis identificar.

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