Franceses lançam manifesto em defesa da cultura Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 13 (AE) - "Mestres do mundo, será que vocês sabem o que estão fazendo?" Essa pergunta, que integra também um convite a uma reflexão mais profunda, foi lançada terça-feira passada pelo sociólogo do College de France, Pierre Bourdieu, a mais de 40 grandes dirigentes mundiais do setor audiovisual, durante o Conselho Internacional do Museu da Televisão e do Rádio.
Na véspera, o primeiro-ministro Lionel Jospin já havia prometido aos parlamentares na Assembléia Nacional que a França seria inflexível na defesa de sua exceção cultural, durante a próxima reunião, em Seattle, da Organização Mundial do Comércio (OMC). "Reivindicamos o direito de apoiar nossa produção, convencidos de que o compromisso da diversidade cultural é essencial."
Hoje, o tema ficou ainda mais atual com a estréia em 700 salas de cinema da França - 200 em Paris - do novo filme de George Lucas, A Ameaça Fantasma, o segundo episódio da Guerra nas Estrelas. Para que se possa medir a importância desse lançamento na Europa, o último filme em que a dupla Jean-Paul Belmondo e Alain Delon apareceu junta foi lançado em apenas 20 salas da capital, causando, na época, protestos dessas duas grandes estrelas do cinema europeu.
A França não quer que o destino de seu cinema venha a ser o mesmo do italiano, até alguns anos um dos melhores do mundo, atualmente em fase terminal, só sobrevivendo graças a um punhado de seus mais brilhantes cineastas, ou mesmo do cinema alemão, preferindo ser chamada de protecionista do que assistir impassivelmente à sua própria morte.
O sociólogo Pierre Bourdieu, um dos grandes especialistas franceses em comunicação, não está apenas preocupado com a sétima arte, mas também com as outras formas de cultura e de informação. Por isso, em seu texto dirigido aos novos maitres du monde, afirma que "reintroduzir o reino do comercial em universos que foram construídos pouco a pouco contra ele mesmo, é colocar em perigo as mais altas obras da humanidade, as artes plásticas, a literatura e mesmo a ciência".
Bourdieu não acredita que alguém possa querer isso. Por isso, em seu discurso-manifesto, declara, entre outras coisas, que não se trata de uma opção entre a "mundialização", isto é, a submissão às leis do comércio, cujo reino do "comercial" é sempre contrário à defesa das culturas nacionais ou qualquer forma de nacionalismo cultural. A seu ver, trata-se de uma luta entre uma potência que visa a estender ao universo os interesses particulares do comércio e uma resistência cultural, baseada na defesa das obras universais produzidas pela internacional desnacionalizada dos criadores.
Ele constata que as preocupações comerciais e, em particular, a procura do lucro máximo estão, a curto prazo, cada vez se impondo mais ao conjunto das produções culturais. No campo da edição de livros, por exemplo, as estratégias dos editores estão orientadas sem nenhum equívoco no sentido do sucesso comercial e não da qualidade literária. Assim sendo, a lógica da velocidade na circulação da informação e do lucro lhe parece incompatível com a idéia de cultura.
Bourdieu cita Ernst Grombich: "Quando as condições ecológicas da arte são destruídas, a arte e a cultura não levam muito tempo a morrer."





