Gilles Lapouge está ansioso. Aos 77 anos, o correspondente do jornal ‘‘O Estado de S. Paulo’’ em Paris vive hoje duas novas experiências: lança um livro antes em português que em francês e, também pela primeira vez, põe um livro na Internet em vez de mandá-lo para as livrarias.
A revista eletrônica ‘‘Maga.zine’’, do portal www.estadao.com.br, já tornou disponível ‘‘L’Amazonie’’. O download da obra inédita de Lapouge é gratuito e pode ser feito nos formatos HTML (que pode ser lido por qualquer navegador) e PDF (que exige o programa Acrobat Reader). O e-book é o primeiro publicado pelo portal.
‘‘É uma visão da Amazônia por alguém de fora, mas um estrangeiro menos estranho do que os estrangeiros que normalmente vão à Amazônia’’, afirma Lapouge. O jornalista francês já viveu em São Paulo por três anos (‘‘Gosto muito dos cariocas, mas prefiro os paulistas’’), fez outras duas grandes viagens pelo País e escreve para o jornal ‘‘O Estado de S. Paulo’’ há 49 anos. E, apesar de ter 13 livros publicados na França, afirma ser mais conhecido no Brasil que no seu país natal.
‘‘L’Amazonie’’ é o que tradicionalmente se chama de livro-reportagem. Mistura informação bruta, estatística, com análises e impressões e depoimentos colhidos pelo jornalista. Traz também 25 fotos de Helcio Nagamine, que o acompanhou durante a viagem pela Amazônia - inicialmente imaginada para a publicação no jornal, o que acabou não ocorrendo. Mas é uma reportagem ao modo de Lapouge: informa de uma maneira ensaística e bem-humorada.
‘‘Passei quatro semanas entre Belém e Porto Velho. É um tempo um tanto curto. Teria sido melhor dispor de quatro meses, de quatro anos - e, ainda assim, teria sido rápido demais. Teria sido mais razoável percorrer a grande floresta em quatro séculos, mas, para isso, me desculpem, eu não teria tido tempo’’, escreve no primeiro capítulo.
Lapouge, que realizou a viagem em 1997, começa seu livro descrevendo as queimadas que encontrou pelo caminho. Na sua opinião, o fogo é o único elemento comum às diversas regiões que atravessou - nos Estados do Pará, Rondônia e Mato Grosso. ‘‘Curiosamente, hoje em dia, fala-se menos dos incêndios do que em outros tempos. Ou porque as pessoas se habituaram a eles e até mesmo os ecologistas acabaram se cansando. Ou então porque outros lugares do planeta são candidatos ainda mais fortes do que o Brasil para receber esse prêmio da morte.’’
Do fogo, alimentado pela floresta que se esvai, Lapouge vai para as cidades, cuja construção é, na sua opinião, uma especialidade brasileira. ‘‘Nos outros países, são necessários séculos para que uma cidade saia do chão - e, nos melhores casos, no Egito, na Suméria, na Grécia ou em Roma, foram necessários três milênios. ‘‘Três milênios para fazer Babilônia ou Ur?’’, dizem os brasileiros, rindo. ‘‘Vejam só! Pois a gente, aqui, faz uma cidade num abrir e fechar de olhos. Machadinho, por exemplo, 15 anos no máximo.’’
Das cidades, Lapouge passa para os homens. Procura ouvir suas idéias, compreender suas obras, seus modos, suas religiões, suas escolhas, seus limites. Discute teologia com José - um pequeno proprietário endividado, frequentador do Tabernáculo da Fé -, cujas opiniões sobre o tema estão bastante distantes das de Lapouge.
‘‘Não relato essa conversa com José apenas por achá-la pitoresca. Ela dá um testemunho da velocidade com que as seitas colonizam as cidades pioneiras da Amazônia, como o resto do Brasil, aliás. Às vezes, trata-se de uma ‘moda’. Uma noite, perguntei à garçonete do restaurante de Machadinho se ela era religiosa. Ela tinha acabado de sair da Igreja Católica e entrara, uns 15 dias antes, para uma seita. Qual delas? ‘Xi, eu esqueci, que horror! Mas eu tenho um prospecto lá em casa, amanhã eu falo para o senhor...’’’, escreve.

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