Paris, 25 (AE) - A poucos dias de Seattle, a França toma uma decisão extraordinária: ela se recusa, pela segunda vez, que a Coca-Cola compre do primeiro produtor de bebidas da França, Pernod Ricard, uma de suas filiais e seu produto guia, a bebida gasosa Orangina.
O pretexto invocado pelo ministro das Finanças francês para desaprovar a Coca-Cola é correto e, até mesmo, "politicamente correto". Seattle verá, certamente, os franceses e vários europeus advogarem por uma organização controlada de trocas, por um capitalismo "regulado" (expressão estimada pelo primeiro-ministro Jospin) e por um liberalismo sob controle.
A cessão da Orangina à Coca-Cola, de fato, teria dado, à firma de Atlanta, uma posição hegemônica no mercado francês de bebidas.
Além disso, os norte-americanos, que queriam devorar a Orangina (pela soma de 4,7 bilhões de francos) dificilmente podem retorquir, uma vez que a França reafirma, assim, os "direitos da livre concorrência", o "credo" dos empresários americanos.
É em nome da livre concorrência que a Microsoft sofre. É em nome da livre concorrência que a Coca-Cola quer que o delicioso bolo constituído pela Orangina lhe lambuze o nariz.
Mas, uma vez dito que a cólera francesa é justificável, cabe reconhecer que efeitos perversos resultarão disso. Primeiro efeito, absolutamente fatal: o título Pernod Ricard foi punido, pois no mesmo dia caiu 1,6% na Bolsa.
Não há por que entrar em pânico: a partitura é conhecida. Em compensação, há outros aspectos mais complicados: normalmente, quando uma firma francesa é vendida a um gigante estrangeiro, os assalariados ficam inquietos. Eles temem que o novo "dono", o estrangeiro predador, habituado a métodos ferozes, vá começar por tirar as gorduras, varrer, demitir empregados, etc.
Ora, nesse caso, aconteceria o contrário: enquanto o governo francês se cumprimenta por sua coragem, os assalariados da Orangina exalam seu amargor, sua desesperança. Eles receberam as decisões como um anúncio do final do mundo. Na verdade, eles sabem que o grupo francês corre o risco, se continuar sozinho, de fazer demissões, e que a única maneira de evitar essas demissões é precisamente passar para o controle norte-americano, tendo a sociedade predadora Coca-Cola deixado claro que nenhuma demissão está prevista, ainda que contratos não estejam excluídos.
Segundo efeito perverso: o que diz respeito ao grupo Pernod Ricard (do qual a Orangina é uma preciosidade). Ricard é a terceira marca de bebidas alcoólicas do mundo. Mas recentes fusões e depredações se deram, o que aumentou o tamanho de outros grupos líderes. Por exemplo, a gigantesca fusão Guiness/Grand Met deu origem a um paquiderme do qual a cifra dos negócios se eleva a 20 bilhões de euros com marcas guias, tais como Johnny Walker, Gordons e outras.
Portanto, Ricard teve necessidade de aumentar o seu tamanho. E contava precisamente com a venda da Orangina para ampliar seus meios e poder mobilizar até 15 bilhões de francos - etapa necessária se Ricard quiser se aproximar de outros grandes produtores estrangeiros (falou-se, nesses dias, do inglês Allied Domecq).
A decisão do ministro das Finanças francês priva, então, Ricard das munições que lhe permitiriam preparar acordos, recentrar-se nas bebidas alcoólicas e permanecer no grupo das grandes firmas mundiais.
Tais são os paradoxos que esse negócio-símbolo da independência francesa provoca: uma política justificada, mas de consequências incômodas. Chateia a sociedade que busca proteção (Pernod Ricard), enlouquece os assalariados e corre o risco de frear o desenvolvimento da firma francesa. E então? Um bem? Um mal?

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