França tem agora seu "monsieur oeuf" Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 01 (AE) - Afinal, o governo francês tomou a decisão : acaba de nomear um "monsieur oeuf" (senhor ovo). Na França, quando um setor não vai bem, nomeia-se um "monsieur". No decorrer dos anos, vimos assim desfilar um "monsieur train" (senhor trem), um "monsieur banlieues" (senhor subúrbios), etc.
Desde a manhã de 1º de setembro, ganhamos portanto um "monsieur oeuf", que é também, logicamente, "monsieur poule" (senhor galinha). Na verdade, seria urgente nomear alguns outros "messieurs" (senhores), se se atentar para o grau de deterioração, de desordem e de crise do setor alimentício. Seria necessário um "monsieur vache" (senhor vaca), um "monsieur poire" (senhor pera), um "monsieur truffe" (senhor trufa), um "monsieur olive" (senhor azeitona), etc.
Todos esses "messieurs" saberiam como recuperar a confiança dos consumidores. Porque, além das falhas econômicas, o mal-estar entre os agricultores franceses nasce do divórcio recente entre os franceses e os produtos da terra: a "doença da vaca louca" na Inglaterra, o envenenamento dos frangos com a dioxina na Bélgica, as pestilentas farinhas para ração animal fabricadas com resíduos transformaram os pratos europeus em verdadeiros tubos de descarega, nos quais o consumidor suspeita estarem escondidos bilhões de micróbios, de virus, et.
A estes infortúnios de origem européia se acrescentam as imundícies exportadas pelos Estados Unidos. Duas principalmente: a carne bovina com hormônios de crescimento, que o consumidor europeu (para alegria dos produtores europeus) rejeita energicamente, apesar do "grande porrete" americano que, em represália, começa a bater sobre o queijo Roquefort francês.
E, depois, os alimentos transgênicos (OGM - organismos geneticamente modificados). Diante destes OGMs a resistência européia é também grande e se endurece: perante a força de ataque dos exportadores norte-americanos de milho ou de soja, senhores do mercado das OGMs, a Europa se esforça por resistir.
Hoje, houve uma tentativa. Dois industriais franceses estabeleceram com os agricultores uma rede "anti-OGM". Isto é, eles se comprometem a alimentar suas aves com soja não-transgênica, observando todo o processo para que, no final, se possa garantir que as coxas de frango, ou então seus ovos, estão livres de qualquer OGM.
Os dois industriais em questão são importantes: Glon-Sanders é o "número 1" da França em alimentação animal e Bourgoin é o principal produtor de aves da Europa. Eles conseguiram convencer 2000 produtores franceses de soja a cultivarem apenas soja não- transgênica a começar deste próximo outono, de tal sorte que, a partir de outubro, o povo poderá ver aparecer nos mercados ovos com a etiqueta "soja do país".
Em face do porte colossal dos produtores americanos de soja, esta ação ainda é modesta. A França produz apenas 5% de suas necessidades de soja. O resto vem sobretudo dos Estados Unidos, mas também da América Latina. Mas trata-se de dar um "basta" à maré transgênica proveniente da América e de mostrar que, como no caso do McDonalds, a França e a Europa se recusam a deixar de lado suas tradições de cultura, de natureza, de alimentação.
A esperança é que o exemplo possa contagiar a Europa. Borgoin, o produtor de aves e ovos que incentiva este ataque contra as OGMs, ja se tornou parceiro, juntamente com alguns dos grandes distribuidores, como a rede Carrefour, da produção da soja não- transgênica em alguns países, inclusive nos Estados Unidos, onde a batalha contra as OGMs se desenvolve entre os consumidores, e também no Brasil.
É inutil dizer que o ovo não-transgênico será mais caro que seu colega transgênico.





