França reconhece dívida pela apropriação de bens de judeus Do correspondente Reali Júnior
Paris, 18 (AE) - Mais de 50 anos após o fim da guerra, a França finalmente reconheceu sua dívida pela apropriação dos bens dos judeus franceses durante o regime pró-nazista de Vichy.
Nesta segunda-feira (18), a comissão sobre a espoliação dos judeus da França, presidida por Jean Matteóli, entregou ao primeiro-ministro Lionel Jospin relatório, estimando que a espoliação dos judeus nesse período atingiu US$ 1,3 bilhão, número levantado junto a vários estabelecimentos financeiros.
Tratava-se do processo de "arianização" das empresas, dos bens e o confisco efetuado junto aos judeus instalados no campo de Drancy.
Segundo o relatório, grande parte dessa quantia - cerca de 90% - já foi devolvida de alguma forma. A missão concluiu que os nazistas conseguiram bloquear 53.000 contas bancárias de judeus franceses, apoderando-se dos depósitos.
O relatório de 3.000 páginas é resultado de três anos de trabalho da missão Matteóli.
Além da espoliação puramente financeira, os judeus franceses foram vítimas da pilhagem de obras de arte e outra divisas, cometidas principalmente pelos alemães.
O relatório revela que 100.000 objetos foram roubados, mas 61.000 retornaram à França a partir do fim da guerra e 45.000 foram entregues a seus verdadeiros donos.
Essa diferença deve-se ao fato de os herdeiros não terem sido encontrados, pois famílias inteiras foram dizimadas pelos nazistas nos campos de concentração. Por isso, cerca de 2.000 quadros, por exemplo, ainda se encontram nos depósitos dos museus franceses.
O dinheiro das pessoas e herdeiros não localizados, vítimas do genocídio, destina-se a um fundo para a instalação de uma fundação com a missão de manter a memória dos fatos, a educação e a solidariedade.
Os pedidos de indenizações individuais serão tratados por uma comissão dirigida pelo magistrado Pierre Draí, mas haverá o cuidado de não se privilegiar, como já aconteceu no passado, os herdeiros ricos.
Da pilhagem participou também na primeira linha a própria embaixada do 3º Reich na França, tendo utilizado meios importantes para confiscar, junto aos colecionadores e marchands judeus, um número importante de obras de arte armazenadas no Museu do Jeu de Paume.
O relatório deixa claro,em duas ocasiões que o comportamento da administração francesa, mesmo depois da guerra, merece críticas, classificando de "prematuras" as vendas de obras não reclamadas.
Além disso, entre 1946 e 1996 nunca houve uma "pesquisa ativa" para tentar localizar eventuais herdeiros. Também os museus da França não agiram com a mesma diligência no período de 1945 a 1950 (quando foram restituídos 45.000 objetos), para pesquisar os nomes dos proprietários das 2.000 obras de arte que lhe foram confiadas.
Em 1995, o jornalista norte-americano Hector Feliciano, publicou o livro "O Museu Desaparecido", uma investigação sobre a pilhagem ocorrida na França e a falta de pressa dos museus em dar informações sobre essas obras.





