França quer garantir "paridade" entre homens e mulheres Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 28 (AE) - A França está fazendo um grande esforço para garantir em sua legislação a "paridade" entre homens e mulheres. Contudo, cada vez mais se percebe que esta "paridade" não depende apenas de um conjunto de leis, mas também de fatores psicológicos e sociológicos muito subtis, sobre os quais só se pode agir lentamente.
Um exemplo: ano após ano se confirma que, em comparação com os rapazes, é muito menor o número de moças que prosseguem os estudos científicos ou buscam carreiras científicas (pesquisadoras) de alto nível.
Durante muito tempo, se imaginou que o cérebro feminino era modelado pela poesia, o canto, a arte, mais do que pelas ciências, sobretudo as chamadas "duras" (física ou matemática). Hoje, graças a Deus, ninguém ousaria proferir tal balela.
Os resultados escolares comprovam isso: no colégio, as moças são mais brilhantes do que os rapazes. Mesmo nas ciências, elas os superam. Pelo menos até o fim do "secundário". É por volta dos 15-16 anos que as coisas mudam.
De fato, por ocasião do ingresso no primeiro ano do bacharelado, os rapazes escolhem maciçamente as "ciências" (40%), enquanto apenas 24% das moças ousam enfrentar este campo. E depois, na faculdade, ou nas Grandes Escolas, é ainda pior. Algumas moças adotam o campo "biológico" mas, nas grandes escolas científicas, onde predominam a matemática e a física, quase só há rapazes (e lembremos que ainda no bacharelado, as moças superam os rapazes inclusive nessas matérias).
O que acontece? Durante uma reunião no Conservatório das Artes e Ofícios, em Paris, foram propostas diversas explicações. Uma delas refere-se aos pais. Muitos pais sonham ver seu filho "politécnico" ou então ganhador do Prêmio Nobel de Física, mas raramente fazem tais votos em relação às filhas. Estranhamente, porém, os pais e mães seriam mais "liberais" com as filhas : eles as deixariam escolher seu campo de estudo a seu bel prazer, enquanto empurram seus filhos para a carreira que mais os lisonjeia.
(Este liberalismo dos pais em relação às suas filhas é bastante suspeito: não significará que uma filha não é tão importante assim? Ela só deve fazer o que lhe apraz... etc..) A futura carreira brilhante é vista pelos pais como um ascensor social para os rapazes. Para as moças, ao contrário, no "inconsciente dos pais", esse ascensor social seria um belo casamento.
(Se esta hipótese for exata, veríamos aflorar aí comportamentos muito arcaicos: o rapaz teria a missão de elevar a "linhagem". A filha conservaria seu papel milenar de reprodutora, de guardiã da célula familiar e de fabricante de crianças) Outra observação: a moça tende a "subestimar-se", portanto, tem medo de se lançar a estudos de nível muito elevado. Por sua vez, o moço se "superestima": ele não duvida absolutamente de sua capacidade de superar todos os obstáculos. ás vezes, ocorrem casos extremos: moças que conseguiram vencer concursos muito elevados sentem uma espécie de vergonha ou de medo por terem ultrapassado os rapazes. Uma física de nível internacional, Claudine Hermann, se recorda: "Quando eu estava com um grupo de rapazes amigos, não me atrevia nem mesmo a dizer que tinha conseguido vencer o concurso da Politécnica enquanto muitos rapazes haviam fracassado".
Outro motivo: Como somente em épocas bastante recentes as moças ganharam acesso às altas carreiras científicas, as que hoje fazem altos estudos não têm "modelos" com os quais se identificar ou medir. Na França, elas só têm uma mulher capaz de servir de modelo: é Marie Curie, uma cientista ilustre reconhecida no mundo inteiro. E, se consultarmos a lista dos ganhadores dos prêmios Nobel de ciências, encontraremos apenas homens.
Por isso, por mais que se invoquem a pressão dos pais, a modéstia das jovens ou a ausência de modelos, em todos os casos existiria uma "fronteira invisível" (psicológica) que as moças hesitariam em atravessar, muito embora suas capacidades intelectuais - no mínimo tão grandes quanto as de seus colegas rapazes - são mais do que suficientes para elevá-las ao mais alto nível.
A École Polytéchnique e a École Normale Science - as duas mais altas instituições científicas francesas - publicaram em conjunto uma brochura entitulada "Les filles sont lavenir de la sience". Bastará isso?





