Paris, 24 (AE) - Um estranho silêncio envolve, na França, a abertura das duas reuniões do Rio de Janeiro: a primeira trata das relações entre o Mercosul (mais o Chile) e a União Européia e, na terça-feira, a reunião de cúpula: União Européia e Alca (América Latina-Caribe). Nenhuma notícia na imprensa não especializada sobre a Cimeira.
Esse silêncio pode talvez ser explicado pelo clima desagradável que reinava até o início da semana a respeito da Reunião de Cúpula. Diziam os boatos que a França preocupada em proteger sua agricultura se oporia ao início dos entendimentos. No jornal madrileno Cinco Dias, José Maria Zufiar anunciava o fracasso dessa iniciativa "em virtude do veto emitido pelo presidente francês Jacques Chirac ao início imediato das negociações".
Hoje, o pessimismo da semana passada atenuou-se. A reunião do Conselho de Assuntos Gerais da UE em Luxemburgo, realizada em 21 de junho, por sugestão da delegação alemã chegou a um acordo que permite dar novo alento à reunião do Rio, alegando que negociações sérias entre o Mercosul e a União Européia não poderiam ser entabuladas antes que a OMC se reunisse. Pelo menos no que diz respeito ao ponto crucial e nevrálgico desses contatos, os aspectos tarifários e alfandegários. Quanto aos outros aspectos, não tarifários, as discussões se iniciariam imediatamente após a Reunião do Rio.
Assim, um calendário começa a tomar forma: as negociações da OMC terão início no fim de 1999. E a etapa relativa aos aspectos tarifários e aos serviços entre o Mercosul e a UE ocorreriam a partir de 1 de julho de 2001, ou seja após as reuniões da OMC.
Evidentemente, essa solução não atende às expectativas dos países do Mercosul que desejariam que a discussão dos aspectos tarifários fosse realizada imediatamente. No entanto, ela é mais favorável do que as intenções atribuídas a Jacques Chirac na semana passada: adiar para 2003 o início das discussões.
Pensa-se em Paris que o acordo a que se chegou em Luxemburgo vai permitir salvar a Reunião da Cimeira dos chefes de Estado da América Latina e do Caribe no Rio de Janeiro, e impedir que ela seja um fracasso antes mesmo de sua abertura. A importância dos interesses em jogo explica que o acordo tenha sido buscado com tanta obstinação: a União Européia não é o segundo parceiro comercial da América Latina depois dos Estados Unidos? E na zona do Mercosul, a União Européia é mesmo o primeiro parceiro, antes dos Estados Unidos.
Além disso, as relações entre a União Européia e o Mercosul, e também com os países da Alca, intensificaram-se muito nos últimos dez anos. Durante a última década, os investimentos diretos dos Quinze da Europa na América Latina aumentaram em 300 %.
A essas considerações acrescenta-se o fato da Europa tomar consciência da incrível resistência das grandes economias da América Latina, em particular do Brasil. A rapidez com a qual o Brasil superou o choque provocado pela desvalorização do real em janeiro espanta os especialistas europeus. Essa adaptabilidade (jogo de cintura?), essa capacidade de recuperação se traduz tanto por parâmetros internos (inflação que baixou de 16 % a 12 %, PIB com um recuo de 1,2 % apenas, em vez dos 3,8 %) quanto pelos fluxos de capitais estrangeiros aplicados diretamente no Brasil, estimados em 13,7 bilhões de euros em 1999, ultrapassando inclusive os investimentos antes do choque, em 1998.
A verdade é que a controvérsia a respeito dos intercâmbios comerciais, em particular no campo da produção de alimentos, não é desprezível. É provavelmente por essa razão que uma "solução intermediária" teve que ser encontrada entre aqueles que desejavam um início imediato das discussões sobre a zona de livre comércio e aqueles que pretendiam esperar três ou até quatro anos.

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