Paris (AE-REUTERS) - O herói francês de histórias em quadrinhos Asterix derrotou os romanos, construiu o palácio de Cleópatra, descobriu a América e apresentou o chá aos ingleses. Agora ele enfrenta seu maior desafio - entrar na arena do cinema para lutar contra os pesos-pesados filmes dos Estados Unidos que tiraram o trono da indústria de filmes francesas.
"Asterix e Obelix contra César", uma deliciosa fábula sobre como uma pequena vila gaulesa enfrentou a poderosa Roma, é o mais caro filme francês já feito. Ele estreou do dia 3 de fevereiro em meio a uma onda de excitação, com o mundo dos filmes franceses esperando que Asterix e sua famosa poção mágica possam fazer milagres por uma indústria que atingiu uma nova baixa no ano passado. Os filmes locais obtiveram apenas 26% dos ganhos com vendas de ingressos em 1998, com quase todo o resto indo para os "arrasa- quarteirões" de Hollywood que dominaram o mercado neste país louco por cinema.
"Será um grande golpe moral se este filme falhar", disse o crítico de cinema Christophe Narbonne da revista francesa sobre filmes "Premiere". "Todos estão torcendo por Asterix". O filme traz um elenco estelar liderado por Gerard Depardieu como o gordo e comilão Obelix, o maior ator cômico francês, Christian Clavier, no papel de Asterix, e a super modelo Laetitia Casta como a luxuriante Falbala. O italiano Roberto Benigni, que surpreendeu audiências no ano passado com sua comédia sobre o holocausto "A Vida é Bela", faz o papel de um romano diabólico que planeja a queda dos gauleses.
Mas é a própria figura diminuta de Asterix que deve atrair as multidões mais do que o elenco brilhante e o prometido conjunto de efeitos especiais. Criado em 1959 pelo artista Alberto Uderzo e pelo escritor Rene Goscinny em um período em que a super poderosa cultura da América estava dominando o mundo, Asterix foi visto desde o começo como um persistente pequeno francês determinado a salvar seu modo de vida. A série teve sucesso instantâneo. Hoje já foi traduzida para 57 línguas e publicada em 77 países, com cerca de 280 milhões de livros cômicos de Asterix tendo sido vendidos pelo mundo, tornando-o uma das exportações culturais francesas de mais sucesso do século 20.
Seguindo sua enorme popularidade, um parque temático de Asterix foi construído fora de Paris onde ele luta contra um grande e vizinho parque Disney pelos corações e mentes das crianças da nação. Agora, seguindo a tradição americana de transformar seus próprios heróis de quadrinhos, como o Batman e o Super-Homem, em campeões de bilheteria, Asterix irá se tornar um astro do cinema.
Depardieu, um dos poucos atores franceses a ser muito conhecido internacionalmente, tem confiança de que a França possa ensinar Hollywood uma coisa ou outra sobre o tema. "Gosto da idéia de transformar personagens dos quadrinhos em seres humanos reais. Os americanos já tentaram isso, mas eles não têm cultura sensível o suficiente para terem sucesso", disse ele em uma entrevista à revista Le Figaro. "Não temos nada com que nos preocuparmos a respeito de entrarmos nesta área, não temos nada do que ter inveja", ele adicionou.
Os orgulhosos franceses têm inveja dos recentes sucessos norte-americanos. No ano passado o épico de Hollywood "Titanic" atraiu um recorde de 20,7 de frequentadores de cinema pela França, batendo o prévio detentor do recorde - o filme francês "La Grande Vadrouille" que mantinha o topo desde 1966. A audiência total atingiu 170 milhões no ano passado, o nível mais alto desde 1985. Mas, com exceção de três comédias francesas de enorme sucesso, a grande maioria de filmes locais afundou sem deixar traços em 1998. Isso significa que tanto financiadores quando distribuidores podem se tornar mais difíceis de encontrar.
Estas são más notícias para a indústria de filmes mais ativa da Europa e coloca muita pressão sobre os estreitos ombros de Asterix. O filme custou 274,6 milhões de francos (US$ 49 milhões), com a França, a Alemanha e a Itália fornecendo o dinheiro. Levou 21 semanas para ser filmado e inclui 250 sequências de efeitos especiais - o número mais alto já incluído em um filme francês. "Com este tamanho de orçamento, o filme tem que ter um mínimo de cinco milhões de ingressos vendidos na França para ser um sucesso", disse Narbonne, da Premiere. Apenas quatro filmes bateram a barreira de cinco milhões na França no ano passado.
Os produtores estão fazendo tudo o que podem para dar apoio. Cartazes de Asterix foram espalhados pelo país semanas antes da estréia e a publicidade deve garantir salas cheias pelo menos durante a primeira semana. Trailers mostram que o diretor do filme, Claude Zidi, criou com carinho o colorido mundo de Asterix. Os atores lembram muito o elenco de personagens e a aldeia gaulesa construída em estúdio é uma cópia em carbono da original. Mas também parece que o apelo está sendo feito mais para as crianças novas do que para o crucial mercado adolescente. Se os adolescentes gostam de um filme, eles voltam várias vezes para vê-lo com os amigos.
Depardieu, que conhece uma coisa ou outra sobre falência de filmes de altos orçamentos devido a seu envolvimento nos desapontamentos em matéria de bilheteria "1492" e "Germinal", se envolveu com a bandeira tricolor francesa para fazer seus conterrâneos apoiarem o filme. "Este é um filme sobre resistência, é um filme sobre nossa cultura", ele disse, ligando a luta dos gauleses contra os romanos à resistência dos franceses aos nazistas dois mil anos depois. Mas pode a cultura francesa derrotar Hollywood com a facilidade com que Asterix castiga os romanos? Isto será decidido nas bilheterias, e não nos campos de batalha.

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