Paris, 28 (AE) - A França e os Estados Unidos são países amigos, dois bons aliados. É por isso que entre os dois, mal acabada uma rusga outra começa (tal como acontece entre casais levemente envelhecidos).
A disputa mais recente deveu-se às "seitas", esses movimentos espirituais que ensinam aos homens a sabedoria, o amor, a amizade, a eficácia, o temor a Deus e a virtude.
A França não gosta muito dessas seitas, considerando-as perversas, ligadas tanto ao Diabo quanto ao Bom Deus, ávidas das poupanças de seus pobres adeptos, politicamente inescrupulosas e - este o pecado supremo, inexpiável; são capitalistas.
Pelo contrário os Estados Unidos consideram as seitas através de outras lentes, mais tolerantes. A ponto de a secretária de Estado de Washington, na pessoa de Madeleine Albright, mostrar-se enervada pela "caça às bruxas" que o governo de Paris, e de outros estados europeus, estariam planejando contra as seitas.
Chegamos ao ponto de Washington preparar a organização de uma cruzada contra a França, em nome da "liberdade religiosa".
É bem verdade que em questões de convicções religiosas os textos fundamentais dos Estados Unidos são bem mais sutis do que os franceses.
Na Declaração dos Direitos do Homem de 1789, a França proclama o respeito por todas opiniões religiosas, porém acrescentando: "Desde que essas opiniões não perturbem a ordem da lei". Liberdade, portanto, mas liberdade severamente vigiada.
Nos Estados Unidos a Constituição é bem mais indulgente, sem dúvida porque os primeiros emigrantes muitas vezes tinham sido perseguidos na pátria de origem, por causa de suas crenças religiosas. Nos Estados Unidos todas religiões gozam de uma liberdade absoluta.
E é esta liberdade absoluta que temem os franceses. De fato inúmeros exemplos comprovam que determinadas seitas cometeram estragos irreparáveis entre os espíritos menos sólidos, demolindo famílias, rebelando os filhos contra os pais, promovendo a desunião entre casais.
Além disso - afirmam os franceses - as seitas utilizam a credulidade de seus adeptos fascinados para subtrair-lhes as economias, constituindo fortunas escandalosas sonegando impostos. Nesse sentido é sempre citada a dívida fiscal das Testemunhas de Jeová, que devem 600 milhões de francos franceses (cerca de US$ 100 milhões) ao fisco.
O dossiê anti-seitas francês não pára de crescer. Ainda assim, deixando de lado as questões financeiras ou morais, os defensores das seitas perguntam: a partir de que momento uma seita deve ser denunciada como perigosa? Quais os critérios? Afinal de contas todas as grandes religiões foram seitas no início. Por exemplo, os discípulos de Cristo.
Hoje a "seita de Cristo" tem dois mil anos de idade, tendo dominado toda história mundial. E a maioria dos "não-cristãos" pregam a moral de Jesus Cristo. Pelo que os partidários das seitas perguntam-se, ao nomearem uma comissão "anti-seitas", os deputados franceses não estariam se comportando como Nero, o perseguidor dos primeiros cristãos, nos tempos romanos.
Esse debate filosófico sustenta a esperteza das palavras trocadas entre a França e os EUA. Ao que se acrescenta uma outra explicação: as seitas mais dinâmicas são originárias do viveiro de profetas norte-americano.
Seriam, pois, as seitas, o Cavalo de Tróia do imperialismo americano no globo terrestre?
O perigo seria tanto mais grave por deterem os profetas norte- americanos recursos financeiros gigantescos, que lhe permitem cobrir todo o planeta, tal como fez a Coca-Cola. A questão final reduz-se, em suma, à que se levantou recentemente em relação ao refrigerante: a fórmula química da Coca-Cola contém, ou não, elementos perigosos?

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