França discute "agricultura pós-moderna" Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 30 (AE) - Ninguém está sonhando em limitar o uso da enxadão, do ancinho, do sacho, da enxada. Estes são instrumentos da era neolítica. Será preciso dizer o mesmo a respeito das grandes máquinas agrícolas modernas e dos equipamentos usados para saturar os campos de pesticidas ou herbicidas? Não temos certeza. Duas cidades da França marcaram data para um encontro com uma "agricultura pós -moderna" (pós-moderna porque procura combinar a modernidade com tradições muito antigas). Estas cidades são Paris e Montpellier.
Em Paris, uma exposição-pioneira ("Le jardin planetaire"), concebida por Gilles Clément, apresenta, entre outras coisas estranhas, esta que interessa ao Brasil: Cultivos realizados não sobre campos lavrados, mas sobre "coberturas vegetais".
Isso poderia ser uma provocação de um "paisagista meio intelectual", mas absolutamente não é. É uma resposta proposta por Gilles Clément a um desastre ecológico, um desastre provocado não pela incompetência ou pela preguiça dos camponeses
mas, ao contrário, pelo uso descontrolado de técnicas modernas no aproveitamento da terra. E, se em Paris esta exposição oferece um exemplo da "cultura sem o amanho da terra ", em Montpellier, cidade do Sul da França, é a teoria dessas novas culturas que está sendo aprofundada pelo Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (CIRAD).
Mas, de que se trata? Há trinta anos desenvolve-se em toda a parte uma agricultura dominadora, feita a golpes de máquinas de arar, de herbicidas, de adubo abundante, de pesticidas. Os resultados imediatos são excelentes. Mas, com o tempo, vem a degradação: solos esgotados e lençóis freáticos poluídos.
Em países como a França, de solo muito rico e clima ideal - estas maneiras brutais de administrar o solo não causam prejuízos instantâneos. O solo resiste à violência das máquinas. Mas, nas zonas menos favorecidas, com solos frágeis ou climas de fortes contrastes, ao final de alguns anos, as culturas agrícolas definham. Os solos morrem.
É por este motivo que vemos multiplicar-se as tentativas para substituir as culturas voluntaristas por culturas melhor adaptadas à precariedade dos solos . E isso não se aplica a alguns jardins experimentais, mas a regiões imensas.
Ali, os camponeses voltam a práticas suaves, que respeitam a natureza. Fazem a semeadura sem lavrar a terra, diretamente sobre cobertura vegetal. Enquanto outrora se revirava a terra todos os anos, agora o camponês mantém uma cobertura vegetal sobre o solo e semeia seu arroz, seu milho, seu trigo em meio a restos meio decompostos de trevos, de sorgo....
Quais as vantagens? Com a palavra o diretor do Centro de Montepellier: "Esta cobertura constante do solo protege das chuvas, do vento, da secura, das mudanças bruscas de temperatura e reduz a evaporação. Mantém a temperatura do solo em níveis constantes e isso regulariza os rendimentos. E não é tudo: as raízes das plantas que permanecem o ano todo captam os nutrientes que se perdem no solo e o restituem á superfície de tal forma que as camadas cultivadas se enriquecem e pode-se então reduzir os adubos. O mesmo vale para a água".
Inicialmente, estas culturas que violam todas as lições das ciências agronômicas foram postas em prática de uma maneira incontrolada, por alguns agricultores que viam suas terras se empobrecerem. Numa segunda fase, alguns agrônomos, intrigados com este fenômeno, examinaram e compreenderam a sabedoria deste método. Este foi o caso da norte-americana Shirley Philips, da Universidade de Kentucky.
O Meio-Oeste americano foi o primeiro laboratório importante destes métodos. Grandes proprietários cultivaram a terra sem lavrá-la desde 1970. Hoje, estes semi-selvagens representam 16% das culturas anuais dos Estados Unidos. Outros países seguiram o exemplo: o Canadá (10% das culturas) ou a Austrália (20%) e a Argentina (17%). O Brasil conta 8 milhões de hectares , ou seja 20% de sua superfície cultivada, dedicados a este tipo de cultura.
A princípio, foram os grandes proprietários que seguiram este movimento. Os pequenos agricultores são, por natureza, mais conservadores (portanto, nesta hipótese, mais "modernos"). Mas atualmente os modestos agricultores da áfrica Central, de Madagascar ou do Brasil , países onde o solo é frágil, se convertem à cultura agrícola sem o amanho mecanizado da terra.
É inútil dizer que este movimento, cujo objetivo é duplo - preservar a terra e aumentar o rendimento agrícola - é impugnado pelos mestres da agro-indústria - de adubos e máquinas - que promovem a venda de seus produtos miraculosos, de seus produtos modernos.
Se alguém quiser convencer-se de que existem motivos razoáveis para estas culturas sem violentar a terra, o exemplo francês é uma prova: na região mais rica deste país, agricolamente tão rico, ou seja, na Touraine, a semeadura sobre cobertura vegetal se expande a um ritmo rápido,. Talvez as máquinas de cortar grama , cujo barulho de motor é tão desagradável no domingo pela manhã quando seu vizinho relaxa aparando o gramado, serão instrumentos de museu no dia de amanhã.





