Paris, 25 (AE) - O chefe do Estado chinês, Jiang Zemin, não poderá se queixar da França. Convidado de honra para uma visita oficial, foi recebido com uma pompa que nenhuma outra figura ilustre recebeu. O que faz ranger os dentes de uns. O que encanta outros.
Uma imagem permanecerá. Em menos de vinte e quatro horas, ela já se tornou histórica: tendo o presidente Jacques Chirac tido a idéia de receber, em sua residência particular (o Castelo de Bity, em Corrze) seu amigo Jiang Zemin, aconteceu o seguinte: o chefe chinês pegou a mulher de Chirac, Bernadette Chirac, e conduziu-a em uma valsa.
Cena barroca, surrealista: não porque o casal Bernadette/Jiang fosse sobretudo menos elegante do que o casal Fred Astaire/Ginger Rogers, mas porque essa cena do "baile de sábado à noite, na França tradicional", entre a primeira dama de uma verdadeira democracia e o primeiro cavalheiro de uma verdadeira ditadura parecia irreal.
Algumas pessoas confrontam esses clichês sublimes, tanto um quanto outro. Primeiro clichê, que já tem dez anos: esse estudante dirigindo, sozinho, diante de um tanque chinês, algumas horas antes a carnificina de Tian An Men. Segundo clichê
a valsa de Bernadette nos braços de Jiang.
Evidentemente, como sempre, manifestantes, homens políticos condenaram as honras "monarquistas", reservadas a Jiang, chefe de uma nação que aprisiona por motivos políticos, que tortura e mata, que submete o Tibete anexado a uma repressão vergonhosa.
Como julgar? Para mim, eu distinguiria dois estratos: de um lado, a visita oficial do primeiro-ministro chinês e, por outro, o convite que Chirac fez a Jiang para ir a seu castelo particular, para que Jiang possa tratar das vacas de Auvergne e, em seguida, dar um pequeno passo de valsa.
Em relação à valsa e às vacas, reconheçamos que se tem o direito de se espantar. Em compensação, no que se refere à viagem oficial, que hipocrisia proferir "gritos de águia"! Quando de Gaulle foi se encontrar com Stalin em Moscou, após a guerra, ninguém ignorava (e de Gaulle certamente) as crueldades comunistas. Mais tarde, assistiu-se ao mesmo de Gaulle ou a seus sucessores (Giscard, Pompidou, Mitterrand) tratar como "amigos" os chefes africanos que eram crápulas sanguinários. E ainda não falamos, hoje, das recepções de chefes do Estado árabe que praticam a lei islâmica ou trancam as mulheres!
Portanto, a questão muda: por que Chirac quis essa viagem extraordinária? Por várias razões: 1 - A China terá, logo, um bilhão e meio de habitantes. Isso não se negligencia. Ela tem uma importância geopolítica enorme. Não se deve "ficar fora da pista", o que já pensava de Gaulle quando foi o primeiro entre todos os ocidentais a reconhecer a duvidosa China de Mao Tsé-Tung. 2 - A China é um grande parceiro comercial. Chirac estava muito satisfeito quando, ao sair de um bom jantar, pôde dizer que a China ia comprar 28 aviões para transporte de passageiros (Bom... Bom...) 3 - Uma razão interna: Chirac, que sempre se incomodou com o talento e a atividade de seu primeiro-ministro Lionel Jospin, encontrou aí um meio brilhante de "curto-circuitar" Jospin. Boa jogada. 4 - A mais importante: desafiar a América do Norte. Sem dúvida, aí está o motivo principal. Alguns dias depois que a América cometeu a besteira de não ratificar o tratado nuclear, Chirac toma a iniciativa.
Uma vez que os Estados Unidos se curvam sobre si próprios, o planeta está privado de liderança. E a associação das nações secundárias, tais como a China e a França (talvez outras também) planejará um novo modelo de poder mundial. E, certamente, não foi por acaso que Jiang Zemin prometeu assinar (mas, uma promessa da China...) o tratado nuclear (o CTBT) apesar da oposição que esse tratado encontrou nos Estados Unidos.
A China teria, então, sido convidada a desempenhar seu papel, com o objetivo de elaborar um mundo em que Washington teria um peso contrabalançado por outras regiões. Tal seria a cruzada para a qual a França tentaria recrutar Jiang.

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