França comemora vitória de socialista Lagos Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 17 (AE-AP) - A grande maioria dos comentaristas da imprensa, da rádio ou da televisão francesas comemora, com mais, ou menos barulho a vitória de Ricardo Lagos. Eles estão agitados pela "contradança" simbólica que se dá hoje: um dos antigos prisioneiros de Pinochet, Ricardo Lagos, que foi preso em 1986 logo após um atentado durante o qual foram mortos cinco guardas do exército do ditador, acaba de se estabelecer na presidência.
Ora, ao mesmo tempo, Pinochet, ofegante de cansaço, corre o risco de ser extraditado para a Espanha ou, sobretudo, de ser enviado de volta ao Chile por causa de suas "doze doenças" (entre elas a senilidade).
Outra imagem: foi Ricardo Lagos que, em 1988, durante um programa de televisão, de repente, apontou um dedo para as câmeras e exortou o general Pinochet a deixar o poder.
Na França, Ricardo Lagos não é muito conhecido. Mas o governo socialista de Lionel Jospin se alegra, evidentemente, com o êxito de um socialista, êxito que é de bom augúrio a algumas semanas da viagem que o primeiro-ministro francês vai realizar ao Brasil, à Argentina e ao Chile.
Os comentaristas consideram que essa eleição desenrolou-se em um clima de calma, apesar das aventuras de Pinochet em Londres. O abraço trocado ontem à noite por Ricardo Lagos e Lavín demonstra como o planeta mudou desde a época em que Pinochet subiu ao poder.
O Chile, então, era disputado de maneira selvagem entre duas facções movidas pelo ódio. A CIA armava suas armadilhas contra Allende e estimulava os caminhoneiros a arruinar o país. É que, naquela época, os Estados Unidos sentiam, em toda a cólera popular, o perfume pérfido dos soviéticos.
Nada disso acontece hoje. A "guerra fria" e sua sequência de violências, suspeitas, histerias, acertos de contas e complôs desapareceu. Os especialistas observam, além disso, que o novo eleito, mesmo que seja socialista e que tenha trabalhado com Allende, garantindo a liquidação do banco Edwards, distingue-se da revolta ardente, lírica e radical da qual Allende foi a imagem e o mártir.
Inevitavelmente, a vitória de Lagos acrescenta um novo capítulo ao romance já muito longo do general Pinochet. Vamos assistir à conculsão da saga londrina do velho ditador? Na França, assim como na maior parte dos países, espera-se que a decisão do governo britânico não constitua a última palavra nesse assunto. O fato de os ingleses não terem transmitido à justiça espanhola o relatório médico parece exagerado.
Sobretudo, uma vez que um dos quatro médicos ingleses entregou sua opinião, e o mais ilustre de todos, sir John Grimley Evans, disse que o ministro Jack Straw mal leu o relatório dos especialistas, circula a idéia de pedir uma segunda opinião médica. Elisabeth Guigou, a ministra da Justiça francesa, disse que "o governo francês havia pedido informações mais precisas sobre a avaliação médica".
Não avançamos mais, pois essa peripécia judiciária, já complexa até hoje, deve ser mais uma vez interpretada à luz do sucesso de Lagos, entendendo-se que, mesmo se não for extraditado para a Espanha, mas enviado de volta ao Chile, o ex-ditador deveria ser julgado, se acreditamos nas promessas de Lagos durante sua campanha, evidentemente com alguns perigos: que esse julgamento não provoque contra o novo poder o rancor dos generais e de alguns meios dos negócios.
Mesmo se esse velho escapar do julgamento, o episódio londrino terá sido fundamental na história do "direito internacional". A partir de agora, saberemos que é possível perseguir, fora de suas fronteiras, um homem acusado de crimes contra a humanidade, mesmo se ele for um ex-chefe de Estado. Será, então, o improvável e misterioso serviço que Augusto Pinochet terá prestado, involuntariamente, no fim de sua vida, aos "direitos humanos".





