França chega atormentada ao ano 2000 Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 30 (AE) - A França encerra seu "milênio" atormentada. Certamente ela está livre da praga dos gafanhotos, dos rios de sangue e do Absinto do Apocalipse, mas experimenta três catástrofes. Duas delas se consumaram: maré negra, tornados. A terceira (o bug do ano 2000) é apenas possível. Aparentemente, estas três catástrofes não estão relacionadas entre si.
Os tornados são uma fúria da Natureza. A maré negra é um efeito da desvairada corrrida ao lucro, à qual se lançam os produtores de petróleo. O "bug" é uma distração dos construtores de computadores que não imaginaram que o ano 2000 não é o ano 1900.
Outra diferença entre as três calamidades: enquanto as duas primeiras nos atacaram de surpresa, a terceira, o "bug", está "programada" há muitos anos. Aliás, isso nos dá a esperança de que ela será limitada.
Apesar disso, por mais diferentes que sejam, estas três calamidades apresentam pontos comuns. Seja em suas consequências para a vida das pessoas e das sociedades, seja mesmo, apesar das aparências, nas suas causas.
As consequências: Um computador se engana de século e toda uma rede é abalada. Os elevadores entram em pane, os caixas eletrônicos ficam surdos e cegos, os hospitais ficam paralisados. O célebre teorema que resume a teoria matemática das "catástrofes" se verifica. "Uma borboleta bate as asas nas margens do Amazonas e um ciclone estoura na China."
Ora, este "efeito borboleta" foi igualmente sentido por nós na França por ocasião das outras duas calamidades: a maré negra e as tempestades. Vimos todos os sistemas de administração do país - sistemas com os quais jamais nos preocupamos em tempos normais - se desfazerem, uns após outros, se bloquearem, se quebrarem, transmitirem a doença de uma parte a todo o conjunto da rede envolvida (por exemplo a eletricidade) e, depois, perverterem uma rede próxima (de água, de estradas, etc...).
Uma embolia nas centrais elétricas ou linhas de alta tensão e imediatamente os refrigeradores tremem, os semáforos se apagam, os veículos colidem uns com os outros, as bombas de combustível se esvaziam, os reservatórios não distribuem mais água, os trens param nas estações, os aviões não decolam mais. etc...
Minuto a minuto, era possível acompanhar, como se fosse num quadro negro, o "desmanche" das redes elétrica, telefônica, ferroviária, rodoviária, hertziana, fluvial, Internet...
Desta forma, compreendemos melhor uma lei frequentemente encontrada. A fragilidade de um país cresce com o seu poder, seu modernismo, a perfeição de seus serviços. Enquanto os bombardeiros norte-americanos esmagavam e arrasavam total e vergonhosamente o Vietnã, o Vietnã continuava a respirar. Ele se enterrava, cavava galerias de toupeiras sob as florestas e como, em tempos normais, o país só possuía sistemas pobres e rústicos, as devastações da frota aérea norte-americana permaneciam controladas.
Ao contrário, bastam algumas bombas potentes e bem assestadas sobre os centros nervosos, sobre a malha viária e sobre as redes nevrálgicas de um país hipermoderno e é o fim do mundo.
O impecável "entrelaçamento da malha" das sociedades modernas as torna infinitamente vulneráveis, pois basta "fazer saltar" uma dessas malhas para que todo o tecido seja dilacerado. Neste sentido, a Internet constitui a "metáfora" da civilização pós-moderna - um triunfo e uma ferida ao mesmo tempo. Uma maravilha, mas, ao mesmo tempo, uma ilustração deste "efeito borboleta" que serve de emblema para a "teoria matemática das catástrofes". "Uma borboleta bate as asas sobre o meu computador e a bomba nuclear dos russos se coloca em marcha..."
Assim, as três catástrofes que afetaram (ou podem afetar) a França confessam que, apesar de suas diferenças, uma cumplicidade as une. Quanto às causas desses desastres, se alguns dependem dos homens e outros do céu, um olhar mais profundo as fará confessar seu parentesco.
Sem dúvida, foi a tempestade (e portanto o céu, a Natureza) que quebrou um navio petroleiro ao largo da Bretanha, mas esta tempestade não teria tido efeito algum se a rica empresa petrolífera francesa TotalFina tivesse fretado um verdadeiro navio com equipamento adequado, em vez de alugar, para ganhar mais alguns vintens, um caixote de lixo flutuante e marinheiros ocasionais. Os estragos da maré negra também teriam sido limitados se a França tivesse se equipado há muito tempo com estações de vigilância, de meios ligeiros e pesados, adaptados a tais calamidades.
A propósito da TotalFina, seu presidente executivo, Thierry Desmarets, ofereceu às vítimas, "um dia de seu salário". Com certeza "seu salário" - como o de todos essas pessoas importantes - é exorbitante - 22.000 francos por dia - sem contar as opções de ações - mas, como um homem deste nível, sem dúvida um politécnico, pode demonstrar uma falta tão grande de sensibilidade - mas a sensibilidade é uma mercadoria rara na companhia - e sobretudo de inteligência?
Resta o tornado (na França, mas também na Venezuela, na Índia, na áfrica Ocidental... E também El Niño e também a seca no Oriente Médio...). Lá igualmente o homem é o culpado, naturalmente.
Culpado de ter enfiado seus grandes dedos ávidos nos equilíbrios sutis da Natureza: efeito-estufa, desaparecimento das florestas, atmosfera infestada de gases industriais, etc...
Os cientistas não duvidam mais que o "desregulamento" dos climas é de responsabilidade do ser humano, desse "Prometeu" vaidoso que é o homem, o homem que se revela capaz de conquistar o poder, mas não de adminsitrá-lo.





