França busca os culpados pela enchente Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 16 (AE) - A "douce France", a "suave" França, nem sempre é "suave". Ela acaba de conhecer um final de semana de furor e de morte: numa vasta zona do Sudeste, entre o Mar Mediterrâneo e os Pirineus, o céu se abriu: campos e povoados desapareceram sob as águas, sob camadas de lama e de colinas desmoronadas. Vinte e sete pessoas morreram afogadas, Os prejuízos são monstruosos.
Na segunda-feira pela manhã houve também uma inundação de comentários e palavrórios. A França descobre que pode ser uma Guatemala, uma Louisiana ou as Filipinas. Descobre que a Natureza é uma velha "histérica" e que, de vez em quando, organiza "apocalipses"....
A Califórnia, a Turquia e a Colômbia conhecem estas coisas. Mas a França é um país extremamente favorecido e ignora tudo isso. A França não imagina que a terra possa tremer, inflamar-se ou liquefazer-se. E é nesta falsa idéia de segurança que reside a primeira causa da catástrofe deste último fim de semana.
Apesar disso, a metereologia realizou muito bem sua tarefa. Enquanto o céu estava ainda intensamente azul, ela anunciou a tempestade. Mas, ninguém se apressou: estas desgraças - pensavam todos - são para os outros países, não para um país tão equilibrado como o nosso. Resultado desta cegueira: 27 mortos.
Depois da tragédia, as pessoas se lançaram a um exercício preferido dos países atingidos por um desastre: a busca dos culpados. Tentamos exonerar a Natureza de suas vilanias para culpar os homens.
Estas buscas são legítimas. Frequentemente, a displicência das autoridades explica os estragos (como recentemente na Turquia...). Mas, desta vez, não houve nada disso: polícia, bombeiros, guardas nacionais funcionaram bem. Nada a censurar.
Partimos então em busca de outro culpado. Seria a "modernização", o que é inegável, mas apenas em parte. Os especialistas em ecologia nos explicam que as enchentes foram provocadas pelo "desmatamento". É um estribilho conhecido. Mas
esse estribilho é falso. Há 50 anos, a França está aplicando uma política enérgica de reflorestamento..
Jamais, desde o tempo dos gauleses, as florestas foram tão vastas, tão belas. E isso principalmente nestas zonas meridionais onde ocorreu a tragédia.
Em troca, uma coisa é exata: a urbanização das paisagens favorece as inundações. Por exemplo, há vinte anos foram sistemáticamente construídas barreiras de contenção nas ribanceiras e margens escarpadas dos rios que apresentavam riscos. Isso, que custou muito caro, teve efeitos sinistros, precipitando água abaixo as inundaçõs e aumentando sua potência.
Outra causa: como em todos os países modernos, as superfícies recobertas pela faixa asfáltica (autoestradas, estacionamentos, subúrbios), multiplicam-se a um ritmo rápido, arruinando aos poucos a Natureza livre. Elas impedem que a terra absorva as águas pluviais. É a calamidade.
Outra falta grave: os municípíos ávidos de turistas, concedem permissão para construir em zonas perigosas. Mais tarde, os chalés de montanha são avassalados pelas avalanches, os bairros às margens dos rios são inundados., etc.
Está pois comprovado que algumas práticas permissivas, corruptas ou imbecis, constituem os fatores agravantes e é preciso lutar ferozmente contra os irresponsáveis. Isso, entretanto, não impede que o desencadear da tragédia seja o golpe de uma Naturezas enlouquecida. A Natureza, tão bela, tão doce, de vez em quando se transforma numa feiticeira, ou numa criminosa. É preciso reconhecer isso.
Impõe-se uma pedagogia: devemos ensinar às pessoas que, mesmo num país "abençoado por Deus", os diabos nunca dormem. E às vezes eles atacam. É por isso que a melhor defesa contra estas desgraças é a informação. Os poderes públicos devem advertir os cidadãos. E, por sua vez, os cidadãos devem ouvir as advertências e fugir a toda pressa: nada se pode fazer contra uma montanha que desmorona, contra um rio desvairado.
Quando a Natureza está zangada, é preciso fugir ... Esta é a única prevenção coletiva.





