Fraga diz que metas do governo não serão afetadas por pressões de curto prazo
Brasília, 28 (AE) - O presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga Neto, encerrou hoje a palestra no seminário do Instituto Tancredo Neves (ITN), do PFL, observando que existe muita preocupação sobre se as pressões de curto prazo poderão afetar as metas do governo. "Isso não ocorrerá; temos condições de administrar isso", garantiu Fraga.
Ele disse concordar com o economista Paulo Rabello de Castro, que cobrou maior democratização do processo de privatização brasileiro, com maior acesso da população. Segundo Fraga, o governo está avaliando a questão de "ampliar o leque das privatizações".
Fraga disse que é natural que o regime de câmbio flexível passe por fases mais nervosas, como a das últimas seis semanas. Mas ele acredita que essa fase chegou ao fim. O presidente do BC observou que o regime de câmbio flexível ajuda a amortecer choques, externos e internos, e disse que o balanço de pagamentos do País está melhor do que há um ano.
Segundo ele, o regime de câmbio flexível é o mais adequado ao Brasil e, para que funcione bem, é necessária uma nova âncora, e a âncora adotada pelo governo foi a da inflação, do controle inflacionário.
Segundo ele, os compromissos perseguidos vêm sendo devidamente acompanhados. Fraga disse que é cedo para comemorar o controle da inflação. "Mas temos confiança, no Banco Central, de que é preciso garantir um bom início para este regime para que ele seja duradouro", afirmou.
O presidente do BC lamentou que as exportações tenham sido prejudicadas pelos preços baixos e pela recessão vivida por alguns países na América do Sul, mas afirmou a confiança em que a situação do balanço de pagamentos tende a melhorar, "com surpresas positivas", no fim deste ano e em 2000.
Segundo Fraga, o Brasil atacou as questões que, ou estão resolvidas ou em vias de resolução, e está dando início a uma fase de crescimento que, na primeira etapa, nos próximos dois ou três anos, será facilitado pela situação de ociosidade da economia brasileira. Fraga declarou que o governo tem conseguido reverter nos últimos meses a questão fiscal. Ele lembrou que o País, há quatro trimestres, vem cumprindo metas fiscais estabelecidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Segundo Fraga, isso é bom para o Brasil porque libera a economia das amarras que a impediam de crescer mais. O presidente do BC ressaltou a importância da atuação do Congresso nessa reversão fiscal, espelhada, segundo ele, no fato de o Brasil ter saído de uma situação que administrava déficit primário e passou a registrar superávits primários.
Ele destacou a importância de votações no Congresso, como a aprovação das reformas administrativa e da Previdência e da Lei de Responsabilidade Fiscal. O presidente do BC disse que a aprovação da reforma previdenciária garantirá que o déficit do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tenha, a partir de agora, uma trajetória de estabilidade ou até mesmo declinante.
Segundo Fraga, ela será declinante se a taxa de crescimento da economia for maior do que a embutida nas projeções feitas pelo governo. "A economia pode crescer mais, mas nós temos de ser conservadores nas nossas projeções", disse o presidente do BC.
O presidente do BC ainda comentou que a mudança de regime cambial, feita no início do ano, foi provocada pela crise internacional deflagrada pelo anúncio da moratória russa e pelo aumento do custo das importações e queda do valor das exportações feitas pelo Brasil. Segundo ele, está muito claro que o País tem de buscar o crescimento sutentado, sem inflação, e que é importante e necessário fazer uma avaliação dos gastos públicos, de acordo com o que afirmara o economista Paulo Rabello de Castro.
Segundo Fraga, o Brasil gasta muito, cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB), fora os juros. Ele disse também que a concepção dele de desenvolvimento é de crescimento com distribuição e que também compartilha da pressa para se resolver as questões do País, igualmente expressa por Castro.
Fraga lembrou que, nos primeiros 80 anos do atual século
o Brasil teve um bom desempenho, mas que, depois, esbarrou em transições econômicas, políticas e financeiras e chegou à atual fase, mostrando sinais de maturidade.
Fraga disse que houve, na fase antecedente, uma inversão muito grave na área econômica, com o descontrole macroeconômico. A situação, segundo ele, foi ainda dificultada pela falta de transparência provocada pela inflação, que pôs a economia num círculo vicioso.
Além disso, segundo o presidente do BC, houve um modelo microeconômico errado, com excesso de controle e regras instáveis. "Macroeconomia descontrolada e microeconomia mal- amarrada", esses eram os principais problemas. Segundo Fraga, no período recente, a crise macroeconômica decorre de duas áreas: a fiscal, com uma dívida interna em trajetória de crescmento, que não é sustentável, e o balanço de pagamentos, frágil, com déficit crescente, mesmo com a economia em recessão.
Essa situação dupla, segundo o presidente do BC, traz um efeito perverso, que é a pressão para a alta dos juros, que não permite o crescimento.





