Brasília, 115 (AE) - Os bancos estrangeiros perderam um terço do investimento em dólares em janeiro, afirmou hoje o presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga Neto. O presidente do BC argumentou para os senadores, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Financeiro, que os bancos estrangeiros tem sempre a política de manter os investimentos protegidos de mudanças cambiais e que, portanto, seria natural que eles se posicionassem em moeda estrangeira.
Fraga Neto explicou aos senadores que, mesmo tendo tido lucro em reais, ele não foi suficiente para compensar o prejuízo em moeda estrangeira.
"O lucro em real não foi suficiente para cobrir o prejuízo em dólar", disse. Mas Fraga Neto não mencionou lucro ou prejuízo de instituições brasileiras.
"Os investimentos são feitos na moeda de origem dos bancos porque o retorno também se dá na sua moeda", disse Fraga Neto.
O presidente do BC admitiu que os bancos mudaram de posição com relação ao dólar nos dias que antecederam a mudança da política cambial. De acordo com o mapeamento feito pelo BC nas posições dos bancos nos dias 11 e 12 de janeiro, a mudança foi da ordem de R$ 900 milhões. Mas ressaltou que não se pode garantir que essa mudança resultou do vazamento da informação de que o governo ía alterar a política cambial. "É impossível provar que não houve vazamento", admitiu Fraga Neto. "Mas houve a divulgação prévia pela imprensa da possibilidade de mudança do regime", disse.
O presidente do BC passou a listar uma série de matérias veiculadas pela imprensa que davam conta de futuras mudanças. Chegou até a falar de uma matéria da revista "Veja", na qual o presidente Fernando Henrique Cardoso dizia que o então presidente do BC, Gustavo Franco, estava cansado e que o economista Francisco Lopes o poderia substituir. "O assunto era público e justificaria alguma movimentação no mercado", disse. O presidente do BC ressaltou que a mudança dos bancos da posição vendida para a comprada em janeiro foi inferior à verificada em outras situações de extrema tensão, como as crises da ásia e da Rússia.
A preocupação maior dos senadores, além de saber se as mudanças de posição com relação ao dólar resultaram ou não em lucro para os bancos e foram provocadas por informação privilegiada, foi com relação às perdas dos investidores dos fundos de investimento. Mesmo sem conseguir explicar direito que os fundos, administrados por um banco, são pessoas jurídicas distintas - não têm nada a ver com a posição do banco - o diretor de Fiscalização do BC, Luiz Carlos Alvarez, garantiu que 87% dos fundos lucraram em janeiro. O BC verificou perda em 6,9% dos fundos existentes.
Ainda de acordo com os dados apresentados pelo BC, o número de fundos existentes no País supera 2 mil, com movimento de recursos da ordem de R$ 153 bilhões. Com relação ao número de cotistas, Alvarez assegurou aos senadores que 99,6% obtiveram lucros nas aplicações, sendo de apenas 0,4% os que ficaram com o prejuízo. Ao fim de janeiro, o BC constatou que o lucro do sistema de fundos foi da ordem de R$ 17,2 bilhões, sendo a perda de R$ 431 milhões.
"A constatação de que clientes tiveram prejuízo de forma generalizada não corresponde à realidade", destacou Alvarez. Segundo o diretor do BC, os fundos que apresentaram prejuízo foram justamente os mais agressivos, que mexem com operações de alto risco, conhecidas como derivativos. Tanto o presidente como o diretor do BC reconheceram que a falha pode estar na divulgação dos riscos para os cotistas. Os investidores
de acordo com o presidente do BC, têm o direito de saber os riscos envolvidos na aplicação dos seus recursos.
Fraga Neto n„o se comprometeu inteiramente com a decis„o da diretoria anterior do BC , que vendeu dólares aos Bancos Marka e FonteCindam a valores inferiores ao do mercado à vista. Durante o depoimento de Fraga Neto, o senador Fernado Bezerra (PMDB-RN), presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), quis saber se ele faria a mesma coisa. Sabia que vinha essa pergunta, respondeu, provocando risos dos senadores. É impossível dar uma resposta a essa pergunta porque seria necessário reproduzir todo aquele clima que existiu na época, mas, honestamente, n„o sei o que teria feito, afirmou.
O presidente do BC tentou amenizar as dúvidas que estava levantando sobre as operac”es e disse n„o poder criticar o processo por considerá-lo razoável. Mas voltou a mostrar aos senadores que aquela decis„o de vender dólar mais barato para os dois bancos n„o o deixava muito à vontade. Espero n„o ter de decidir quest”es como essa. Várias vezes durante o depoimento, o presidente do BC quis deixar claro que n„o estava ali para defender pessoas. Vim aqui para colaborar com a CPI, para relatar fatos que apurei e n„o para defender pessoas, disse.
Ao contrário de Fraga Neto, Alvarez fez uma defesa da venda de dolares aos Bancos Marka e FonteCindam por precos mais baratos. Na época, Alvarez era chefe do Departamento de Fiscalizac„o e participou da decis„o. Se o Banco Central n„o tivesse agido haveria, quebra de confianca nos mecanismos de hedge (seguro) da Bolsa de Mercadorias e Futuro (BM&F), o que era um risco muito grande que n„o valia a pena correr, explicou.
A banda cambial teria estourado e gerado o caos no sistema financeiro, com quebra em cadeia de bancos, inclusive os grandes."
Bezerra e o senador Roberto Requi„o (PMDB-PR) quiseram saber que risco sistêmico poderia ser provocado pela quebra de dois bancos pequenos. S„o tamboretes e nunca tinha ouvido falar neles antes deste caso, disse Bezerra. Os argumentos apresentados por Fraga Neto e Alvarez mostraram que a preocupac„o do BC era com a defesa da política de banda cambial, que tinha acabado de ser instituída pelo governo, e com a possibilidade de que ocorresse no Brasil algo parecido com o que se passou na Tail„ndia, Indonésia, Coréia e Equador, entre outros. Nesses países, a quebra de algumas instituic”es provocou uma ação em cadeia que atingiu até mesmo as empresas comerciais e industriais.
O presidente do BC disse que a decis„o de ajudar o Marka e ao FonteCindam foi de toda a diretoria, mas n„o soube dizer se houve alguma recomendac„o superior, como quis saber Bezerra.A CPI pode perguntar isso para as pessoas que participaram da decis„o, afirmou.
O presidente do BC informou que a venda de dólares para o Marka e o FonteCindam n„o foi aprovada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), nem mesmo depois de feita.O CMN tomou conhecimento pela imprensa, disse, em resposta a um questionamento de Requi„o.
Alvarez destacou o pouco tempo que a diretoria do BC teve para tomar a decis„o, que foi sugerida pela direc„o da BM&F. No caso do Marka, foram um dia e algumas horas e no caso do FonteCindam, foram algumas horas. Alvarez mencionou uma imagem de jogo de futebol. Falar que um juiz errou num lance, depois de o verr várias vezes no replay é fácil; difícil é decidir no calor da batalha."
Fraga Neto elogiou a criac„o da CPI. Ela é importante porque a sociedade demanda e merece esclarecimentos completos sobre as suspeitas que est„o sendo levantadas, afirmou. O País precisa de um Banco Central que tenha credibilidade, pois ele é o guardi„o da moeda, acrescentou. Ele admitiu que o simples fato de que o Banco Marka estava fazendo operac”es na BM&F que correspondiam a 20 vezes o patrimônio é motivo suficiente para a abertura de uma investigac„o. Como é possível que alguém tenha assumido posição de tal risco?, perguntou. Esse grau de alavancagem absolutamente extraordinário representa certa aberrac„o.
Fraga disse que é preciso corrigir as regras que permitem esse tipo de aberrac„o e informou que o BC pensa, junto com a Comiss„o de Valores Mobiliários (CVM) e com a BM&F, corrigir essas distorções e estabelecer limites para riscos com operações de câmbio, prazos e preços.

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