Fraga chega ao Brasil; mercado espera corte do juro hoje
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de abril de 1999
Por Angela Bittencourt e Equipe da AE-Broadcast 
São Paulo, 28 (AE) - O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, chega hoje ao Brasil e promete concentrar a atenção do mercado. A expectativa é de que Fraga assuma a posição de representante do governo FHC junto a CPI do Sistema Financeiro, mas, antes disso, tome duas decisões. A primeira é definir se a Comissão de Sindicância do BC encerrará seus trabalhos de apuração do suposto envolvimento da instituição num esquema de venda de informações privilegiadas ou se prorrogará o prazo para elaborar um relatório final. A segunda, considerada mais importante decisão, é usar a prerrogativa do "viés de baixa" - reafirmado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na reunião do dia 14 - formalizando mais um corte do juro primário no mercado aberto.
Ontem, os bancos voltaram a azeitar as operações de repasses de reais para liquidação nesta quarta-feira, elevando suas apostas na perspectiva de nova redução da meta da taxa overnight (Over/Selic) utilizada como referência para a definição de toda a estrutura de juros da economia brasileira. O último corte do juro foi anunciado exatamente há duas semanas, com o Copom trazendo a taxa over de 39,5% para 34% ao ano. No início da noite desta terça-feira, a despeito da atenção dispensada ao depoimento do ex-diretor de fiscalização Cláudio Mauch à CPI do Sistema Financeiro, grandes bancos discutiam a possibilidade de o BC reduzir o juro a algo entre 31% e 32% ao ano. Nas operações a termo contratadas durante o dia com lastro em títulos públicos federais, o juro projetado sofreu um fino ajuste, sendo inicialmente cotado a 31,92%, subindo a 32,59% e encerrando a 33,03% ao ano.
A renovada expectativa do mercado com o uso da prerrogativa do "viés de baixa", que permite ao presidente do Banco Central do Brasil reduzir o custo primário do dinheiro sem convocar formalmente o Comitê de Política Monetária, deve ser reforçada ao longo desta quarta-feira por uma razão objetiva e que conta pontos a favor da autoridade monetária: hoje é véspera de leilão de títulos prefixados emitidos pelo Tesouro Nacional. Isto significa dizer que se o BC tiver que alterar o juro de dupla face - que corresponde de um lado à remuneração de investidores e, de outro lado, ao custo de financiamento de carteiras - dificilmente ele anunciará a decisão depois que as instituições financeiras tiverem adquirido novos lotes de títulos públicos que podem ter sua taxa de retorno comprometida por um custo de financiamento incompatível.
E isto tampouco significa fazer o jogo do merca do, uma vez que também interessa ao BC e ao Tesouro Nacional sinalizar de véspera taxas de juros mais baixas para que os novos lotes de títulos públicos que vão entrar em circulação tenham remuneração menor, colaborando assim para reduzir as despesas financeiras do governo que pesam no cálculo do resultado nominal das contas públicas. Nesta quarta-feira, o mercado não deverá comprometer seu tempo com qualquer leilão de títulos federais. Mas, amanhã, o Banco Central cede sua vez na agenda ao Tesouro Nacional que oferecerá ao mercado mais R$ 3 bilhões de títulos pelo valor nominal, sendo R$ 1 bilhão de prefixadas Letras do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em 91 dias e R$ 3 bilhões de Letras Financeiras do Tesouro (LFT).
Títulos- O leilão de LTN previsto para amanhã é reprise da operação promovida nesta terça-feira e que foi considerada bom indicador para as autoridades monetárias. Os títulos, de 91 dias de prazo e vencimento em 28 de julho, confirmaram que o mercado continua contando com a aplicação do "viés de baixa" por Armínio Fraga. Estes papéis foram vendidos com taxa máxima de retorno de 29,08% ao ano, contra 29,93% do leilão realizado na quinta-feira passada. Amanhã, o Banco Central também se movimenta, mas não colocará títulos à venda.
O BC vai emitir dois lotes de papéis prefixados (R$ 1 bilhão de Bônus do Banco Central com prazo de 28 dias mais R$ 1 bilhão de títulos semelhantes e prazo de 35 dias) que ficarão em sua carteira. Na sexta-feira, o BC vai colocar a venda R$ 1 bilhão das cambiais Notas do Banco Central da série E (NBC-E) com vencimento em 13 de outubro, e emitirá mais R$ 1 bilhão com resgate previsto para 20 de outubro mas que não será oferecido ao mercado, sendo também reservado para abastecer a carteira própria da autoridade monetária.
Apenas com os leilões de ontem, o Tesouro já conseguiria compensar os resgates previstos para o período de 24 a 30 de abril e que totalizam R$ 3,804 bilhões, segundo levantamento do BC divulgado pela Andima. Em maio, os resgates somam R$ 23,143 bilhões. - O corte do juro poderá contribuir para um repique da bolsa brasileira nesta semana, talvez levando o mercado a novos movimentos de realização de lucros nos dias seguintes. O índice Bovespa fechou ontem, pelo segundo pregão consecutivo, abaixo de 11.000 pontos e sustentado basicamente por giro de recibos de Telebrás, que responderam por mais da metade do volume negociado à vista. Algumas corretoras notaram a participação discreta de investidores estrangeiros na ponta de compra, mas o giro pesado foi promovido por compra e venda de tesourarias a ponto de justificar transações equivalentes a quase US$ 400 milhões.
Apesar da retração da parcela mais representativa dos estrangeiros, persiste a expectativa de que eles poderão comprar mais Brasil dependendo do resultado da combinação de dois fatores: a aceleração dos trabalhos da CPI do Sistema Financeiro no sentido de esclare cer os fatos, mas neutralizando as suspeitas levantadas em torno do Banco Central devido às denúncias de favorecimento a bancos; e o efeito retardado de boas notícias sobre o Brasil no mercado internacional. Destacam-se entre as notícias já assimiladas pelo mercado doméstico: o lançamento de US$ 3 bilhões de global bonds, o resultado fiscal que indica o cumprimento do "critério de desempenho" firmado pelo governo brasileiro junto ao FMI e que prevê superávit primário consolidado de 2,7% do PIB no primeiro trimestre do ano, e o comportamento positivo da inflação ante a expressiva desvalorização do real.


