Fraga admite dificuldade para rolar dívida e anuncia novo título
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quarta-feira, 10 de março de 1999
Por Monica Yanakiew 
Nova York, 11 (AE) - O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, admitiu hoje para investidores de Nova York que a equipe econômica enfrenta dificuldades com a rolagem de dívida de curto prazo e as pressões para indexar o salário mínimo ao ritmo inflacionário determinado pela livre flutuação do câmbio.
Fraga, porém, antecipou algumas fórmulas que permitirão ao Brasil voltar ao mercado, apesar de não ter ainda reconquistado a credibilidade. Entre elas, o lançamento de um novo tipo de título, mais caro, mas mais seguro para o invesidor.
Ao assegurar o apoio oficial do Fundo Monetário Interno (FMI), Banco Mundial (Bird), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e dos governos de 20 países que ajudaram a montar o pacote de ajuda financeira de US$ 41,5 bilhões ao Brasil, Fraga lançou uma nova ofensiva para captar recursos do setor privado internacional.
Na reunião com 22 economistas de bancos de investimento, ele disse que está trabalhando com números conservadores: dos US$ 40 blhões em linhas de crédito - empréstimos a curto prazo - que o Brasil tinha há pouco mais de seis meses, só sobraram US$ 20 bilhões, porque os bancos privados se retiraram de um mercado considerado arriscado demais.
Sabendo que os investidores não pretendem arriscar seu dinheiro sem saber qual será o câmbio do real e a taxa de juros do mercado brasileiro, ele decidiu lançar um título híbrido, indexado ao dólar - mais caro e mais seguro para quem resolver comprá-lo. A fórmula, segundo Fraga, "satisfaz ambas as partes".
Os atuais títulos são remunerados, em alguns casos, de acordo com a variação da taxa de câmbio e, em outros, com base na variação dos juros. Quem comprar o novo título não terá de apostar em uma ou outra opção; será remunerado pela variação que for mais conveniente na hora do vencimento.
Para ter essa segurança, o investidor pagará um pouco mais. Por exemplo, em vez de comprar um título pelo equivalente a US$ 100,00 e receber esse valor, acrescido dos juros na hora do vencimento, pagará US$ 110,00. Os dez dólares adicionais não serão devolvidos.
"Para o governo brasileiro é bom porque, ao arrecadar esse dinheiro extra, estará reduzindo os pagamento de juros altíssimos de 45%", disse um dos participantes."Mas o Brasil só deve mesmo retornar ao mercado internacional depois da reunião do FMI de abril", acrescentou.
Ninguém perguntou a Fraga como espera chegar ao fim do ano com inflação de 17%, quando o último úndice mensal foi de 4 4% - muito acima do esperado. "O governo comprometeu-se também a reduzir o crescimento da base monetária, que em 98 foi de cerca de 16%, para 10% este ano", explicou um dos economistas. "Com uma retração dessa magnitude, os índices inflacionários terão queda brusca."
Salário - No entanto, Michael Gavin, da SBC Warburg Dillon Read, tocou num ponto delicado para a equipe econômica: ele perguntou que índice de inflação seria usado para o reajuste dos salário mínimo em maio.
Quem respondeu foi o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, mas de forma evasiva. Ele explicou que a constituição brasileira determina que seja preservado o valor de compra real do salário mínimo, dando a entender que a questão é politicamente complicada.
Outro participante perguntou por que o Brasil não fixou limites mais precisos de controle de inflação no seu programa com o FMI, como fizeram países mais desenvolvidos. Fraga foi franco: o BC explicou que tem bons dados, mas precisa ainda desenvolver um bom sistema de pesquisa. E é isso que ele pretende fazer.
Mantendo o estilo direto de explicar o Brasil a pessoas que, como ele, ganhavam a vida analisando os riscos de mercado de países emergentes, ele reconheceu que um de seus problemas é lidar com os US$ 30 bilhões em dívida pública que estão rolando diariamente no overnight. Mas explicou que já está enfrentando a questão com algumas mudanças: substituir o overnight por operações de swap com prazo de sete dias.
Depois dessa reunião, Fraga almocou com o governador do Federal Reserve (Fed), o banco central norteamericano, regional de Nova York, Bill McDonough. Em seguida, reuniu-se com funcionários do Tesouro dos EUA, representantes dos grandes bancos norteamericanos e com o vice-diretor-geral do FMI, Stanley Fischer.
O governo dos EUA, um dos 20 que contribuíram para o pacote de ajuda de US$ 41,5 bilhões ao Brasil, está disposto a a pedir a seu setor privado que volte a investir no Brasil. Mas os norteamericanos querem demonstrar que os esforços são conjuntos.


