Frade era reverenciado como santo
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de junho de 1997
Agência Estado 
RECIFE - Comparado ao milagreiro padre Cícero do Juazeiro, frei Damião de Bozzano se transformou numa lenda viva e é tido como santo pela gente humilde do Nordeste, região que escolheu para pregar seus sermões e catequizar o povo desde que desembarcou no Brasil em 1931, vindo da Itália.
Filho de camponeses, Pio Giannotti - nome de batismo - nasceu em 5 de novembro de 1898 na cidade italiana de Bozzano. Aos 12 anos iniciou seus estudos de religião e, aos 16, ingressou na Ordem dos Capuchinhos - terceira dissidência dos franciscanos -, de tradição missionária e cuja presença no Brasil data do começo do século 17.
Suas pregações sempre foram baseadas na pedagogia do medo, ameaçando os pecadores com o fogo do inferno. Sempre frisou a existência do demônio, que - dizia - certa vez lhe jogou sete pedras quando entrou numa casa abandonada em Mirandiba, no interior de Pernambuco.
Na sua definição, o inferno é o lugar onde mora o demônio e onde o calor é bilhões de vezes pior que no Nordeste. E, ao inferno, ele condenou, durante toda a sua vida, os comunistas, os adúlteros, os que vivem maritalmente sem se casar, os afeminados, as mulheres que usam métodos anticoncepcionais, os jovens que namoram sem a presença dos pais e até mesmo os que gostam de dançar.
Mesmo doente, desde meados da década de 80 quando já não podia falar para a multidão nas suas missões, o religioso nunca perdeu sua influência sobre a população pobre, especialmente do interior nordestino.
Reverenciado e tido como um profeta, a literatura de cordel e as conversas do povo dizem que descrentes e difamadores do religioso viraram urubu, cobra, cachorro e outros animais. Seu nome sempre esteve ligado ao misticismo e ao fantástico.
Proibido por alguns bispos de realizar missões em suas dioceses por fanatizar o povo, frei Damião recebia homenagens de políticos e autoridades e títulos de cidadão honorário em dezenas de cidades nordestinas. O ex-governador de Pernambuco, Nilo Coelho, ao lhe conceder uma medalha do mérito, em 1971, afirmou que frei Damião era um fator de contenção da revolta dos que sofrem.
Em 1989, frei Damião rezou uma missa em Maceió, para comemorar a vitória de Fernando Collor no primeiro turno das eleições. E o apoiou no segundo turno. Eleito presidente, Collor patrocinou, em 1991, a ida do missionário para tratamento de saúde, em São Paulo, quando ele teve uma embolia pulmonar e correu risco de vida.
Um dos princípios de frei Damião era o de que é preciso sofrer nesta existência para se ter merecimento na outra. O frei não gostava de ser comparado ao padre Cícero, que considerava um fanatizador rebelde, nem assumia a responsabilidade por milagres. Segundo ele, o povo inventa milagres e o milagre só vem com merecimento e fé.


