Fracasso de Seattle se reflete em Davos
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2000
Por Rolf Kuntz 
Davos, Suíça, 28 (AE) - A sombra de Seattle, cenário do grande fracasso da reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio, se estendeu sobre o Fórum Econômico Mundial antes de qualquer grupo organizado ocupar as ruas para protestar contra a globalização. Os protestos podem ocorrer amanhã, durante a visita do presidente Bill Clinton, mas os grandes temas discutidos há dois meses, quando se tentou, sem êxito, lançar a Rodada do Milênio, foram retomados em Davos, nos últimos dois dias, por muitos debatedores - entre eles o presidente do México
Ernesto Zedillo, o diretor-geral da OMC, Mike Moore, o banqueiro Jorge Soros e o presidente da central sindical norte-americana AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho e Congressos das Organizações Industriais), John Sweeney.
Zedillo falou depois de Sweeney, num discurso longo e cuidadosamente preparado, denunciando como protecionismo disfarçado as tentativas de vincular padrões trabalhistas e questões ambientais às normas de comércio.
Não seriam necessários os protestos de rua, em Seattle, para o fracasso da reunião, disse o diretor-geral da OMC, Mike Moore: simplesmente havia muita diferença, entre os vários governos, a respeito de temas cruciais como agricultura, questões trabalhistas, serviços e proteção do ambiente. Seu esforço, agora, na sede da organização, em Genebra, é trabalhar com os embaixadores dos mais de 130 associados, buscando aproximar as posições. Só a partir daí será possível programar novas negociações de nível ministerial.
O painel com participação de Moore reproduziu com razoável precisão o quadro de Seattle. O presidente da empresa norte-americana Textron, Lewis B. Campbell, defendeu "sem restrição" os benefícios do livre comércio, reproduzindo os argumentos normalmente utilizados pelos representantes norte-americanos (sem entrar, no entanto, na defesa dos padrões comerciais próprios dos Estados Unidos, como o recurso frequente a medidas antidumping).
O diretor da Third World Nedtwork, da Malásia, Martin Khor, protestou contra a participação desigual nas negociações e na preparação dos principais documentos - reproduzindo as queixas de dezenas de delegados de países do Terceiro Mundo, em Seattle. Também contestou que a globalização tenha sido benéfica para todos e cobrou a solução de problemas herdados da Rodada Uruguai - como a questão agrícola - antes da negociação de novos temas.
Sweeney também contestou os benefícios da globalização e defendeu a adoção de padrões internacionais de salários e condições de trabalho e de proteção do ambiente, aplicáveis com base em mecanismos de sanção. O discurso de Zedillo foi sobretudo uma resposta a Sweeney, mas valeu também para posições defendidas pelo governo dos Estados Unidos nas discussões de Seattle.
"Forças da extrema esquerda, da extrema direita, grupos ambientalistas, sindicatos de países desenvolvidos e alguns auto-indicados representantes da sociedade civil têm-se reunido em torno de um empenho comum: salvar o povo dos países em desenvolvimento do .. desenvolvimento", disse o presidente mexicano. Unidos fortemente pela globafobia, continuou, esses grupos, com o pretexto de defender os trabalhadores dos países pobres, opõem-se à liberalização do comércio e do investimento internacional. Os defensores de padrões trabalhistas homogêneos, segundo Zedillo, estão provavelmente menos preocupados com a pobreza dos trabalhadores dos países em desenvolvimento do que com a concorrência deflagrada pelo comércio. Parecem, continuou, decididos a ignorar que a alternativa, para esses trabalhadores, é frequentemente a extrema pobreza rural ou a ocupação marginal na informalidade urbana, onde qualquer direito trabalhistas dificilmente poderá materializar-se.
Este argumento, desenvolvimento um pouco mais longamente por Zedillo, foi usado em mais de um artigo pelo economista norte-americano Paul Krugman. O presidente mexicano manifestou o mesmo ceticismo quanto à sinceridade de quem defende a inclusão de temas ambientais nas normas de comércio.
Antes desse debate, outro grupo havia discutido as consequências sociais da globalização e a necessidade de encontrar meios para administrar e controlar as mudanças econômicas. O problema consiste, em grande parte, segundo o financista George Soros, em distinguir dois papéis, o de participante do mercado e o de cidadão. O primeiro papel corresponde ao da defesa do interesse privado, tanto mais intensa quanto mais dura a competição. O segundo corresponde à preocupação com os temas de interesse geral e à formulação de regras. Este papel corresponde à ação política. A esta compete a formulação de regras para disciplinar a ação no mercado.
O coordenador do debate, o presidente da Hang Lung Development Company Ltd., de Hong Kong, Ronnie C. Chan, mencionou a possibilidade de canonização de Soros, pondo em dúvida a separação de papéis do competidor e do cidadão. Mas ninguém, na discussão, apresentou noções muito mais concretas.


