Brasília, 18 (AE) - Fracassou a tentativa do governo em votar hoje na Câmara o projeto que possibilita a criação de pisos salariais acima do salário mínimo nacional. "Como não conseguimos mobilizar agora, fica praticamente impossível reunir quórum esta semana", lamentou o líder do governo na Câmara, deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).
A ausência dos próprios aliados pôs abaixo a principal estratégia do governo para facilitar a aprovação do salário mínimo de R$ 151, marcada para o dia 26. Na avaliação do Palácio do Planalto e de líderes governistas, a permissão para criar pisos salariais mais generosos nos Estados é fundamental para dar argumentos ao discurso dos aliados em favor dos R$ 151 e facilitar a vida do governo, transferindo a pressão aos governadores.
"Esta semana não se vota nada por conta da obstrução das oposições e, na semana que vem, ficará tudo paralisado por causa da obstrução do próprio governo", prevê, descrente, o relator do mínimo na comissão especial, deputado Eduardo Paes (PTB-RJ). Por este raciocínio, os adversários do governo vão obstruir a votação dos pisos regionais para dificultar a votação do mínimo, mais adiante. Ocorre que a dificuldade cada vez maior de se chegar a um acordo para evitar um confronto entre o Planalto e o PFL, que insiste nos R$ 177, está levando os próprios governistas a apostar na obstrução do mínimo.
A base governista chegou tímida na Câmara hoje, e não conseguiu sequer somar 250 deputados. Abriu, assim, caminho fácil para a oposição obstruir a votação. Apenas 203 deputados estavam em plenário às 17h45 de hoje, quando o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), resolveu derrubar a sessão por falta de quórum. Menos de um minuto depois, a oposição em peso chegou ao plenário e fez questão de marcar presença no painel eletrônico, somando 345 deputados - suficientes para abrir a votação do projeto, que exigia maioria simples (257 parlamentares).
O projeto dos pisos salariais dos Estados continua na ordem do dia, mas antes de apreciá-lo o governo terá que votar o projeto que trata da estrutura de funcionamento e de pessoal das agências reguladoras. Para aprová-lo, são necessários apenas 257 deputados em plenário e a maioria deles a favor da proposta. Vencida esta etapa, o governo terá que aprovar um requerimento de urgência urgentíssima para o projeto dos pisos regionais. Do contrário, a previsão é de que o projeto só seja incluído na pauta do plenário no dia 11, depois de cumprir todos os prazos e trâmites regimentais.
Temer marcou a sessão para as 10 horas de amanhã (19), apelando para que os deputados compareçam. "Vamos fazer um sacrifício, há muitos itens importantes na pauta", insistiu Temer, antes de encerrar a sessão. Mas ninguém acredita na eficácia do apelo do presidente.
Os deputados que compareceram à sessão reclamavam do fato de terem sido convocados na Semana Santa. "Antes da sessão
recebi mais de 70 avisos de deputados da base que dizendo que não poderiam comparecer esta semana", disse Madeira. "Fizemos o que podíamos para mobilizar, mas pelo jeito vai ser tudo na semana que vem."
O líder do PPB na Câmara, deputado Odelmo Leão (MG), justificou a ausência dos colegas: "É Semana Santa, uma semana especial, de religiosidade." Já o líder do PFL, deputado Inocêncio Oliveira (PE), antes da votação, apostava na presença da bancada. "A Semana Santa começa na quinta, vamos ter quórum sim."
O líder do PT na Câmara, deputado Aloizio Mercadante (SP), comemorava a estratégia que impediu a votação. "Eles (a base governista) precisavam apenas da maioria simples, sequer conseguiram isso e fizemos questão de marcar presença depois da sessão encerrada", disse.
Mercadante afirmou que a oposição vai continuar a obstrução também na próxima semana, já que não concorda com nenhum dos pontos da pauta.

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