Bruxelas, 23 (AE-REUTERS) - Diante do fracasso da missão do enviado norte-americano Richard Holbrooke para obter um acordo de paz em Kosovo nesta terça-feira (23) em Belgrado, o bombardeio de alvos militares e estratégicos na Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) pela Força Aérea da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) é iminente - deverá começar na madrugada de hoje para amanhã com uma salva de mísseis Tomahawk, lançada de porta-aviões americanos estacionados no Mar Adriático
segundo funcionários do Pentágono e parlamentares americanos, que citaram como fonte o próprio presidente dos EUA, Bill Clinton.
"Não me agrada fazer a guerra, mas se temos de fazê-la, vamos em frente", disse Clinton, depois de receber vários parlamentares (incluindo republicanos que, depois de muitas críticas, decidiram apoiá-lo), referindo-se à negativa do presidente iugoslavo Slobodan Milolsevic em firmar o acordo nos termos propostos pelo Grupo de Contato, formado por Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, Alemanha, França e Itália.
"Se Milosevic não quer a paz, estamos dispostos a limitar sua capacidade de fazer a guerra."
A decisão de Clinton irritou profundamente o primeiro-ministro russo Yevgeny Primakov, que estava em Shannon (República da Irlanda) a caminho de Washington para uma visita oficial aos Estados Unidos. "Esse é um assunto de exclusiva competência do Conselho de Segurança da ONU", disse Primakov, que decidiu retornar imediatamente à Rússia (tradicional aliada dos sérvios).
"A Otan vai cometer uma agressão contra um país soberano, que enfrenta um conflito interno, e desestabilizar o mundo."
O chanceler russo, Igor Ivanov, disse que sua embaixada em Belgrado continuará funcionando normalmente. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, por sua vez, decidiram fechar suas representações na Iugoslávia. A embaixada norte-americana abriu suas portas hoje pela última vez para receber Holbrooke, que não conseguiu convencer Milosevic a aceitar um item fundamental do acordo: a presença de uma força militar de 28 mil homens da Otan
para supervisionar o cumprimento integral de suas difíceis etapas - entre as quais a instituição de tribunais de Justiça e a substituição da polícia sérvia por uma representativa da maioria (de origem albanesa).
"Não conseguimos absolutamente nada dele", lamentou Holbrooke. Milosevic não só rejeitou a presença de uma "força estrangeira" em território iugoslavo, como lançou uma ameaça à Otan. "Todos os que impõem soluções pela força terão de enfrentar as consequências de seus atos", disse ele, pouco antes da decretação de estado de emergência em toda a Iugoslávia
que assiste à maior mobilização de reservistas no país desde a 2ª Guerra Mundial.
Pouco depois da declaração de Milosevic, o Parlamento sérvio rejeitava, igualmente, o desembarque de uma força internacional de paz no país. "Não aceitamos soldados estrangeiros em nosso território, como nos propôs o senhor Holbrooke, nem ao preço de um bombardeio", disse o presidente sérvio Milan Milutinovic. "Eles reinariam sobre Kosovo e a Sérvia deixaria de existir na província: jamais poderíamos aceitar isso."
O deslocamento de tropas, blindados, tanques e baterias de mísseis antiaéreos (SAM-2, SAM-3 e SAM-6, fabricados na ex-URSS) iugoslavos para Kosovo prosseguia hoje. O destino deles era a fronteira com a Macedônia, onde a Otan estacionou mais de 10 mil homens (segundo o comandante das forças terrestres da aliança, as tropas acampadas na Macedônia não vão intervir em Kosovo, pois "são forças para manutenção da paz").
Continuavam também intensos os combates na região norte do território, onde o Exército de Libertação de Kosovo (ELK) mantém cerca de 10 mil guerrilheiros fortemente armados. "Muitas aldeias viraram cinzas", disse uma testemunha.
Milhares de kosovares estão deixando suas casas e fugindo para a Albânia e Macedônia. As autoridades macedônias fecharam hoje todos os postos fronteiriços. E o governo albanês enviou milhares de soldados para a fronteira iugoslava (ao longo de Kosovo).
Holbrooke partiu para Bruxelas, onde fez um relato de sua malograda missão para o Conselho da Otan, formado por representantes dos 19 países membros.

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