Los Angeles, 25 (AE-REUTERS) - O fotógrafo Steve Lehman foi para o Tibete em busca do paraíso, mas não o encontrou. Agora os chineses o impediram de continuar sua procura.
Isso porque, ao invés de fotografar um Shangri-la no Himalaia, ele tirou fotos de manifestações, da atuação violenta da polícia e da campanha de opressão dos mestres chineses do Tibete. Seu novo livro, "Os Tibetanos: Uma luta para sobreviver", tem por objetivo jogar uma luz sobre o que ele diz ser a brutalidade diária do pesado domínio de Pequim na região devotada ao budismo.
Antes de ir para o Tibete, o fotografo de Los Angeles disse, "Eu tinha esta visão romântica que todos têm, este tipo de visão primitiva da situação lá. Naquele tempo não podia imaginar os problemas atuais". Cobrindo dez anos, as fotos mostram a vida no Tibete: geralmente difícil, algumas vezes bela e sempre provocando reflexão. O livro começa com dramáticas fotos de conflitos violentos na capital do Tibete, Lhasa, em setembro e outubro de 1987. Dezenas de pessoas foram mortas conforme as marchas pela independência tibetana deram início a conflitos violentos com a polícia e soldados. Lehman, de 35 anos, lembra de seu choque ao deparar com as marchas em seu primeiro contato com o Tibete. "Eu conhecia as implicações, sabia da coragem necessária. Nunca havia visto um ato de coragem", ele disse. Em uma página, um homem carrega um garoto de oito anos que chora de dor devido a um ferimento de bala em suas costas. O menino morreu mais tarde. Outra página mostra uma foto do que Lehman diz ser um policial chinês disparando uma pistola contra a multidão.
"É um assunto muito violento, muito sério", disse Lehman. Virando as páginas, as fotos se tornam mais delicadas. Retratos em preto e branco trazem as expressões de monges, mendigos e vendedores. Brilhantes tomadas coloridas pagam tributos a picos, planos e outras maravilhas da natureza do plateau. Depósitos de lixo e construções revelam o preço da modernização trazida pelos chineses. "Conforme crescia como fotógrafo, me tornei capaz de interpretar aqueles temas com mais coerência e interpretá-los numa forma visual", disse Lehman.
Seu livro e uma exibição de suas fotos no Newseum de Nova York se juntam a um crescente coro de vozes no ocidente clamando por mais liberdade para os 2,5 milhões de pessoas do Tibete. Filmes como "Sete anos no Tibete", estrelado por Brad Pitt, e uma oratória pró- independência de figuras conhecidas como o ator Richard Gere, galvanizaram o apoio ao Tibete. Mas Lehman disse que espera que seu livro mostre os leitores esse mortalmente perigoso assunto além do glamour de Hollywood. "Eu queria um livro que contasse a história do Tibete de uma maneira real. Ninguém tem uma idéia realmente boa sobre o que está acontecendo no Tibete", ele disse.
Isso acontece largamente porque a China impôs restrições a estrangeiros, especialmente jornalistas, de viajarem ao Tibete. Lehman está particularmente proibido de retornar. A capa de seu livro é um testemunho desta paranóia oficial, mostrando a mão de um policial cobrindo a lente da câmera, tentando bloquear a visão de monges protestando. O próprio Lehman brincou de gato e rato com a polícia chinesa, geralmente escapando de tentativas de pegá-lo. Em várias ocasiões quando sua sorte falhou ele foi detido e questionado durante a noite. Uma vez ele foi muito óbvio quando se colocou para fora da janela de seu hotel para tirar uma foto de um comboio de prisioneiros tibetanos. "Eles pararam o comboio, vieram ao hotel e derrubaram minha porta", ele se lembrou.
Lehman não segura a mão do leitor ao contar sua viagem. Notas rabiscadas a mão e recortes de artigos de jornais e de livros dão uma qualidade ruim, algumas vezes requerendo um esforço para decifra-los, mas também criando um sentimento de intimidade. "O processo de juntar as informações foi bagunçado e acredito que é importante refletir isso", disse Lehman.
Fotos e notas também oferecem momentos do líder espiritual exilado do Tibete, o Dalai Lama, cujos olhos Lehman descreve como de um "mamífero super-inteligente". "O homem emite compaixão e sinceridade - com sua inacreditável risada. Ho, ho, ho. O cara é engraçado - sabedoria e conhecimento em seus olhos", fala Lehman ao lado de fotos do sorridente monge. Suas observações divergem das da imprensa controlada da China comunista, que descreve o Dalai Lama como um tirano deposto que deseja reinstalar a escravidão no Tibete e dividir a pátria-mãe.
Pequim mantém um olho vigilante sobre a região agora, que em março marca o 40º aniversário de um levante contra o domínio comunista que forçou o Dalai Lama a partir para o exílio na Índia. Ele nunca mais voltou para casa. A admiração pessoal de Lehman pelo Dalai Lama é obvia mas isso não o impede de criticar respeitosamente o Prêmio Nobel da Paz de 1989. Em particular, ele não concorda com as recentes aberturas para Pequim em busca de uma autonomia mais interna para seu povo enquanto concede à China o domínio final sobre o Tibete. "Ele ser um líder espiritual o impediu de tomar as difíceis decisões políticas para ter seu país de volta. O Dalai Lama não precisa se apresentar como pedinte para os chineses", ele disse. "Os chineses não deixarão o Tibete porque são pessoas legais. Eles deixarão o Tibete porque serão forçados, e os tibetanos têm habilidade para forçá-los".

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