Porto Alegre, 29 (AE) - O Brasil vive uma crise ética e as responsáveis por ela são as elites políticas, empresariais, sindicais e acadêmicas. Sob o pano de fundo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos, estas observações foram feitas por participantes do 1º Fórum Federasul de Ética, que começou hoje, em Porto Alegre. "As elites tem de fazer um pacto ético para consertar o Brasil", pediu o economista, professor e consultor de associações empresariais Nélson Barrizzelli, um dos palestrantes do Painel de Ética Empresarial, o primeiro do evento, que termina amanhã (30), na Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul (Federasul).
"Este país está muito cheio de discurso, mas sem transparência", reclamou o diretor para Assuntos Corporativos das Cervejarias Kaiser, advogado Carlos Eduardo Jardim. Ele disse que, se tivesse de classificar o nível ético do empresário brasileiro, usaria o termo "médio". O diretor-executivo de Relações Governamentais do HSBC Bamerindus, Hélio Duarte, também tocou no assunto: "A CPI dos Bancos reforça a sensação de crise ética", notou. Mas defendeu o Proer - "Lamento que seja tão mal compreendido pela opinião pública" - e reparou que, apesar da CPI, o sistema financeiro do País "é um dos mais regulamentados e fiscalizados".
Barrizzelli acha que cabe às elites determinar o comportamento ético e dar o bom exemplo. "Nos últimos anos, tivemos péssimos exemplos", enfatizou. O economista lembrou que
na chamada CPI do PC, que investigava as ações do empresário Paulo César Farias no governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello, só foram punidos os corrompidos, e os corruptores ficaram intocados. "O suborno generalizou-se; recentemente, uma multinacional demitiu todo o seu departamento de compras devido ao suborno", ilustrou. Ele propôs um remédio: "Além da auditoria contábil, deveria ser feita uma auditoria social; seria realizada por auditores externos e obrigatória, pelo menos
para empresas de capital aberto."
Barrizzelli considerou "muito justo" que a sociedade tenha dúvidas quanto ao grau de lisura que vigora no mundo dos negócios. Ao ver dele, colaboram para esta reticência "as relações incestuosas" entre poder econômico e político. Também citou, como causas da insatisfação, o desempenho dos produtos ofertados e os efeitos sociais (entre eles, a poluição do meio ambiente) da atividade industrial.
Já Duarte garantiu que o HSBC - nos 80 países e territórios em que está presente - tem por norma não contribuir para campanhas de partido políticos.
Barrizzelli criticou a complacência do fisco com as grandes empresas, tratadas de modo favorecido. "No caso do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), um tributo pesado, as grandes empresas fazem ajustes tributários e, dificilmente, pagam alguma coisa", censurou. "É um pacto de elites", ressaltou.
Os diretores de Responsabilidade Corporativa da Northern Telecom (EUA), Megan Barry, e de Recursos Humanos da Motorola do Brasil, Luis Antonio Corvini, também participaram do painel. Corvini assegurou que a ética é "fundamental" nos negócios da Motorola, cujo código de conduta foi instituído em 1937. Megan examinou o comportamento das empresas multinacionais nos diferentes pontos do mundo e o dilema entre agir respeitando uma legislação mais severa do país de origem ou aproveitar as leis locais, mais complacentes.
Mencionou o caso da Texaco, que causou problemas ambientais no Equador, porém, sem violar nenhuma lei equatoriana. O mediador do debate foi o economista Eduardo Gianetti da Fonseca. Gianetti entende que existe "um dilema espinhoso" entre o ético e o lucrativo. Isto ficaria mais visível nas relações das empresas com as questões da política e do meio ambiente. O encontro foi aberto pela conferência do professor Georges Enderle, da Universidade Notre Dame, de Indiana (EUA).
Vice-presidente da International Society of Business, Economics and Ethics, Enderle abordou a ética empresarial em várias partes do mundo e defendeu a idéia de que ética e negócios podem conviver muito bem.
Amanhã (30), o empresário José Mindlin falará, às 9h40, seguindo-se a conferência da presidente do International Business Ethics Institute, Lori Tansey Martens. O painel Ética na Política acontecerá às 10h20. Dele, participarão o ex-prefeito carioca César Maia (PFL-RJ) e os deputados José Genoíno (PT-SP) e Emerson Kapaz (PSDB-SP). O mediador será o jornalista Carlos Tramontina, da Rede Globo de Televisão.
O segundo painel, Ética na Comunicação, contará com a professora Roseli Fischmann, da Universidade Mackenzie e da Universidade de São Paulo (USP); os presidentes do Conselho Nacional de Auto-Regulação Publicitária (Conar), Gilberto Leifert, e da Ibirá Comunicação Estratégica, Sidney Basile, e o jornalista Mário Marona, editor-chefe do "Jornal Nacional", da Rede Globo. Caberá a mediação ao publicitário Alex Periscinotto, secretário de Publicidade Institucional da Presidência da República.
A conferência do diretor do jornal "O Estado de S. Paulo", Júlio César Mesquita, está prevista para as 16 horas. Logo depois, às 17 horas, haverá o encerramento do seminário.

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