Forte campanha visa fechar Escola das Américas
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quarta-feira, 05 de maio de 1999
Por Jim Lobe, da IPS (assinatura obrigatória) 
Washington (AE-IPS) - Legisladores e mais de 5 mil ativistas dos Estados Unidos lideram uma campanha para fechar a Escola das Américas, o centro militar norte-americano que treinou vários oficiais latino-americanos acusados de violar os direitos humanos. A campanha está sendo incentivada pelas desculpas oferecidas pelo presidente Bill Clinton em março pelo treinamento e apoio que Washington deu durante décadas às forças armadas guatemaltecas, acusadas de genocídio e de outros crimes.
Em uma carta dirigida a Clinton semana passada, um grupo de oito legisladores democratas e republicanos da Câmara dos Representantes pediu o fechamento "imediato" da Escola das Américas. Em uma coletiva de imprensa feita em frente ao Congresso em Washington o grupo também anunciou que apresentará em conjunto com 114 legisladores mais um projeto de lei que fecharia a Escola 30 dias após ser aprovado pelo Parlamento. Simultaneamente, cerca de 5 mil ativistas se reuniram em Washington para fazer protestos organizados na frente da Casa Branca e do Pentágono contra o que chamam de "Escola de Assassinos". "Antes de condenar a limpeza étnica do presidente iugoslavo (Slobodan) Milosevic no Kosovo, os Estados Unidos devem lavar o sangue de suas próprias mãos com o fechamento da Escola das Américas", disse o sacerdote Roy Bourgeois, co-diretor da organização SOS Watch em Washington. "Podemos dar o exemplo terminando com este capítulo assassino de nossa história", afirmou.
A Escola, fundada no Panamá em 1946 e mudada de lugar em 1984 para Fort Benning, no estado da Georgia, luta para manter suas funções desde o fim da Guerra Fria. No ano passado um projeto de lei que colocaria um fim em suas atividades foi derrubado na Câmara Baixa pela estreita margem de 212 votos contra 201, e os opositores da Escola crêem que têm boas chances de ganhar este ano. Em sua existência de mais de 53 anos, a Escola treinou cerca de 60 mil oficiais latino-americanos em técnicas de combate, contra-insurgência, combate ao terrorismo e inteligência. O centro assegura que nos últimos anos agregou aulas sobre direitos humanos ao programa, que atualmente é transmitido a entre mil e 2 mil oficiais por ano.
Mas muitos de seus alunos são notórios por suas violações aos direitos humanos. Por exemplo, dois dos três assassinos conhecidos do arcebispo salvadorenho Oscar Romero estudaram na Escola, assim como o ditador argentino Leopoldo Galtieri e dez dos militares responsáveis pelo massacre de 900 civis no povoado de El Mozote, em El Salvador, no ano de 1981. Entre seus alunos também se encontra o ex-presidente do Panamá, general Antônio Noriega, preso nos Estados Unidos por tráfico de drogas. "Os alunos da Escola perpetraram algumas das piores violações dos direitos humanos da história deste hemisfério", sustenta a carta enviada a Clinton e redigida pelo legislador Joe Moakley, do governante Partido Democrata. "Quantas atrocidades devem ocorrer antes que possamos decidir que já basta?", pergunta a carta. Mesmo assim, Moakley felicitou Clinton pelas declarações que fez na Guatemala em março. "O apoio dos Estados Unidos às forças militares ou às unidades de inteligência que participaram da repressão violenta e generalizada descritas pelo informe foi ruim e nós não devemos repetir este erro", declarou o mandatário.
O informe ao qual Clinton se referia foi feito pela Comissão Histórica da Guatemala que, com o apoio da Organização das Nações Unidas, revelou que Washington havia dado dinheiro, armas e treinamento aos militares guatemaltecos que cometeram atos de genocídio contra a população maia e outras graves violações contra supostos dissidentes. A comissão também concluiu que o treinamento de contra-insurgência dado pelos Estados Unidos teve "um peso importante nas violações dos direitos humanos" praticadas durante a guerra civil que dividiu o país durante mais de 40 anos. O informe agregou que a Escola das Américas é um dos centros fundamentais de onde parte este tipo de treinamento.
O general Héctor Gramajo, que como ministro da Defesa guatemalteco no começo dos anos 80 dirigiu a devastadora ofensiva contra-insurgente do país, também foi graduado da Escola. Outros alunos foram o coronel Júlio Alpírez e nove oficiais que torturaram e assassinaram o líder guerrilheiro Efraín Bamaca, segundo Jennifer Harbury, viúva de Bamaca e advogada norte-americana que também defende o fechamento da Escola. Foram ainda alunos da Escola dez dos 30 oficiais chilenos contra os quais o juiz espanhol Baltasar Garzón solicitou processos por crimes, torturas e desaparecimentos durante a ditadura militar de Augusto Pinochet. Na Colômbia, alunos da Escola também foram vinculados a graves violações dos direitos humanos no país. Um deles é o general Paucelino Latorre Gamboa, que comandou a notória Brigada 20, assim como o general Rito Alejo del Río, destituído pelo presidente Andrés Pastrana por seus presumidos vínculos com esquadrões de morte de ultra-direita. "Alguns defensores da Escola dizem que estes problemas são coisas do passado. Mas não é assim", sustenta o legislador Jim McGovern, que teve papel importante na investigação do massacre de seis sacerdotes jesuítas em El Salvador em 1989, no qual estiveram implicados 19 ex-alunos do centro da Georgia. "Basta ver os generais e comandantes da Colômbia que perpetraram violações de direitos humanos e massacres de civis nos últimos dois anos para encontrar alunos formados pela Escola das Américas", disse.
O Pentágono nega que foi ensinado aos estudantes da Escola o desrespeito aos direitos humanos ou a prática de outras atividades ilegais. "A Escola, ao contrário das acusações que muitos fazem, nunca treinou ninguém em práticas ilegais", disse o porta-voz e tenente-coronel William Darley. As acusações são "escandalosas e sem fundamento", assegurou. Muitos dos opositores do centro, que ele acusa de terem "fins políticos", nunca o visitaram nem analisaram seu programa de estudos que, adicionou, agora conta com capacitação em direitos humanos e democratização. "Já basta. Assim como caiu o muro de Berlim, também deve cair a Escola das Américas", declarou à imprensa o legislador do Texas Ciro Rodríguez. Uma opinião similar teve o legislador republicano de direita Joe Scarborough, que disse que o apoio dado pelos Estados Unidos aos militares latino-americanos "faz parecer hipócrita a luta (de Washington) pela liberdade e pela democracia em todo o mundo".


