Fornecedores gaúchos acusam Sonae de pressão monopolista
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domingo, 02 de maio de 1999
Por Sérgio Bueno 
Porto Alegre, 3 (AE) - Os fabricantes de bens de consumo domésticos gaúchos, especialmente do setor de alimentos, recorreram à Federação das Indústrias do Estado (Fiergs) para suavizar as condições que estariam sendo impostas pelo supermercado Sonae. Desde que passou a deter cerca de 50% do mercado local de distribuição, com a aquisição das redes Real, Exxtra-Econômico e Nacional, o grupo português estaria pressionando fornecedores a concederem prazos de pagamento que chegam a 60 dias e oferecerem descontos de até 20% em alguns produtos.
"Ultimamente fomos procurados por muitos sindicatos de indústrias apontando para a existência de práticas exageradas por parte do Sonae", disse o presidente da Fiergs, Dagoberto Lima Godoy.
De acordo com ele, a rede estaria exigindo contribuições maiores das indústrias para publicidade e para a abertura de novas lojas, além do chamado "rapel", um desconto adicional para cobertura de custos internos.
Na semana passada Godoy reuniu-se com o diretor comercial do Sonae, Vicente Dias, que se comprometeu a enviar cópias de contratos-padrão utilizados pela rede para comparação com as reclamações das indústrias. Segundo o presidente da Fiergs, o trabalho será concluído em 30 dias e se forem localizados "pontos problemáticos" o supermercado admitiria "flexibilizá-los".
Com a possibilidade de entendimento, a entidade adiou a intenção de encaminhar o caso à apreciação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Procurado pela AGÊNCIA ESTADO, o diretor comercial do Sonae - que já enfrentou problema semelhante no Paraná, onde domina 70% do mercado - limitou-se a afirmar que as relações comerciais da empresa com seus fornecedores "não mudaram" nos últimos anos.
Em uma nota oficial de quatro pontos, ele informou que o grupo "acredita na livre negociação entre as empresas, assentada no entendimento mútuo, buscando sempre as melhores condições do mercado".
O documento diz que o supermercado procura "servir os consumidores com uma proposta de valor baseada em produtos de qualidade a preços muito competitivos". Acrescenta que o grupo tem uma "visão de aperfeiçoamento na cadeia de abastecimento, que decorre da necessidade permanente em tornar cada empresa mais competitiva no segmento em que atua, numa busca contínua de melhores custos".
Representantes de fornecedores, entretanto, confirmam que as indústrias estão sofrendo muito com a concentração do mercado de varejo e a "postura imperial" do Sonae. Eles não podem expor suas empresas, mas garantem que estão operando com margens cada vez menores e às vezes "pagando para vender". A própria distribuição dos produtos entre as várias lojas da rede seria de responsabilidade do fornecedor.
Cada um resiste como pode, enquanto espera que a negociação conduzida pela Fiergs alivie a pressão do Sonae. A barganha mais dura é em relação a prazos e porcentuais de desconto, mas ninguém escapa das contribuições para a inauguração de lojas. Em muitos casos, os fornecedores têm que manter funcionários próprios dentro dos supermercados para tomar conta de seus produtos.
Algumas indústrias estão buscando alternativas como a diversificação de clientes, apelando para as vendas ao pequeno e médio varejo. Outro recurso que vem sendo empregado é a negociação de "pacotes", com a inclusão de produtos mais baratos, onde as margens são praticamente eliminadas, e industrializados de maior valor agregado.


