São Paulo, 5 (AE) - Formandos de medicina que estão cursando o último ano no exterior não receberão o diploma até que façam as provas do Exame Nacional de Cursos, o Provão. Como o Ministério da Educação não prevê a aplicação do teste fora do Brasil, esses estudantes correm o risco de ter de aguardar até o ano 2000, quando haverá nova prova, para receber o diploma e começar a exercer a profissão. Dezenove estudantes estão nessa situação. Eles estão matriculados em instituições brasileiras e participam de programas de graduação em países como Estados Unidos e França.
O caso desses estudantes surpreendeu o Ministério da Educação (MEC), que não prevê a aplicação do teste fora do País. "Não temos condições operacionais de realizar a prova no exterior", justifica o coordenador do Provão, Tancredo Maia Filho. Segundo ele, não há registro de nada semelhante nas três edições anteriores do exame.
O problema ocorre justamente na medicina, curso incluído no Provão este ano, apesar da oposição de estudantes e profissionais da área. "Qualquer aluno que não faça o Provão fica impedido de receber o diploma", tenta minimizar Maia Filho.
Ele informa que o contrato firmado pelo MEC com as Fundações Cesgranrio e Carlos Chagas, responsáveis pela aplicação do exame, não prevê a realização de provas no exterior. O coordenador conta ter sido procurado pelas famílias dos estudantes em busca de esclarecimentos. A resposta, porém, é clara: caso não façam o teste no próximo domingo, os estudantes terão de esperar o Provão do ano 2000.
CFM - A decisão do MEC de incluir a medicina no teste deste ano é condenada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e enfrenta forte resistência de profissionais e estudantes da área. "Uma prova teórica é insuficiente para avaliar médicos", resume a vice-presidente do conselho, Regina Parizi.
Mas um dos principais argumentos do CFM e dos estudantes contra a inclusão da medicina no Provão - estréiam este ano também a economia e a engenharia mecânica - é o fato de a maioria dos cursos já ser avaliada, de forma voluntária, pela Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do Ensino Médico (Cinaem) desde 1992. Ligada à Associação Brasileira de Ensino Médico, a comissão concluiu em 1997 o relatório sobre 54 dos 82 cursos então existentes. Atualmente há 91 cursos em funcionamento no País.
Como protesto, formandos de diversas instituições planejam comparecer vestidos de preto aos locais do teste, no próximo domingo. Em São Paulo, os graduandos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de São Paulo (USP) e Santa Casa estão organizando manifestações em conjunto.
"Vamos montar estandes na porta das escolas e promover atos-show para protestar contra a prova", avisa Regis Otaviano França Bezerra, coordenador regional da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (Denem). A Denem já mandou confeccionar 7,5 mil camisetas e outra quantia de adesivos com a frase: Provão: só faço porque é lei. Avaliação de verdade se chama Cinaem. "Os estudantes vão colar o adesivo na prova", anuncia Regis. Avaliação complexa - De acordo com Regina Parizi, a avaliação de um médico - e, portanto, dos cursos de medicina - é demasiadamente complexa para uma prova nos moldes do Provão. Isso porque a formação de um profissional da área requer experiência prática, como a capacidade de fazer diagnósticos apalpando o abdome ou auscultando o coração do paciente. "O máximo que o Provão poderá indicar é se a parte teórica do curso está adequada", observa a vice-presidente do CFM.
A presidente da Cinaem, Regina Celes de Rosa Stella, critica também a falta de comprometimento dos alunos com o Provão. "A única exigência é a presença no dia da prova", diz. "Na Cinaem, todos participaram voluntariamente dos processos de avaliação e chegaram juntos às conclusões, que estão levando à melhoria dos cursos." Em maio começou a terceira fase da Cinaem
com a elaboração de propostas para melhorar as escolas.
"Já estamos em um estágio avançado de transformação e, por isso, não é necessário que os alunos façam o Provão." Para o coordenador do Provão, Tancredo Maia Filho, a avaliação da Cinaem não impede que os alunos participem do Provão. "As duas avaliações são convergentes e permitirão uma análise melhor do curso", afirma Maia Filho. Segundo Regina Parizi, que é também secretária-executiva da Cinaem, o desempenho médio dos 54 cursos foi de 50%. Entre os maiores problemas da área está a baixa qualificação acadêmica dos professores e o excesso de teoria em detrimento da prática. "Apenas 5% dos docentes tinham doutorado", revela Regina, que considera a situação dramática. "Quem está lecionando nos cursos de medicina do País?"
Preocupado com a formação dos médicos, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, tenta incluir a medicina no Provão desde 1996, quando o teste foi aplicado pela primeira vez. Mas as resistências do setor retardaram a medida durante três anos. "Houve muita incompreensão: achavam que o Provão iria substituir a avaliação feita pela Cinaem", diz Paulo Renato, que considera os dois testes complementares. "Hoje não há 100% de convencimento, mas uma parcela significativa da área da medicina entende a necessidade do Provão."
"Cachorro-quente" - Para garantir a qualidade do ensino, porém, a vice-presidente do CFM cobra do MEC mais rigor no credenciamento de novos cursos. "Não podemos nos dar ao luxo de investir durante seis anos num profissional caro como o de medicina e depois deixar que ele vá vender cachorro-quente", diz ela. "O controle deve ocorrer na escola, durante o aprendizado, e não depois."
Além de considerar o Provão incompleto, Regina aponta outro problema ligado à inclusão da medicina: para garantir uma boa nota, há o risco de muitas instituições reforçarem a carga horária teórica no último ano do curso, de modo a preparar os formandos para o exame. "Os alunos vão ficar estudando teoria quando deveriam estar atendendo nos hospitais e pronto-socorros", enfatiza ela, que considera as atividades práticas no sexto ano da medicina fundamentais para o futuro exercício profissional.

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