Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na última semana de junho mostram que o número de indígenas com diploma de nível superior teve um aumento explosivo entre 2000 e 2010. No início da década passada, o País tinha 7.752 indígenas com idade igual ou superior a 25 anos que haviam concluído a faculdade. Dez anos depois, eram 16.163 pessoas. O aumento, de 108,5%, só foi inferior proporcionalmente ao crescimento do número de negros ou pardos com mais de 25 anos graduados: nesse grupo, a variação foi de 264,49%. Entre os brancos, foi de 91,17%, e entre a população de raça amarela, de 88,42%.
  Apesar do crescimento expressivo, os indígenas continuam sendo a cor ou raça com a menor porcentagem de pessoas que concluíram a faculdade. Há dois anos, 19,16% da população brasileira de raça amarela com 25 anos ou mais tinha diploma; 16,59% dos brancos na faixa etária mencionada possuíam o mesmo nível de escolaridade; as populações com menores proporções eram a parda ou negra, com 5,65%, e a indígena, com 4,35%. No Paraná, a proporção era parecida: 4,68% dos indígenas com 25 anos ou mais residentes no Estado eram graduados.
  Arildo França, coordenador do Observatório de Direitos Indígenas (Odin) em Dourados (MS), destaca que na década passada foram criadas condições para maior acesso de indígenas ao Ensino Superior, como cotas específicas e o programa ProUni, mas ao mesmo tempo faltaram planos de permanência. ‘‘Os indígenas têm que se deslocar da sua aldeia para estudar e muitas vezes arcam com aluguel, água, luz, transporte. A dificuldade é permanente’’, relata.
  ‘‘No Brasil, há uma falácia muito grande. A gente finge que dá direitos. Existem políticas afirmativas, mas nós temos que garantir a efetivação das políticas públicas de direitos humanos. Vemos o Brasil ratificar acordos, mas não vemos mudança’’, critica Samia Roges Jordy Barbieri, presidente da Comissão Permanente de Assuntos Indígenas da Ordem dos Advogados do Brasil no Mato Grosso do Sul (OAB-MS).
  No Paraná, o vestibular indígena, que terá sua 12ªedição este ano, destina seis vagas em cada universidade estadual e 10 na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ao contrário do sistema de cotas tradicional, ele não reserva vagas do concurso geral: os estudantes indígenas selecionam o curso que desejam fazer e são criadas vagas extras nas graduações escolhidas pelos aprovados.
  Oséas de Oliveira, presidente da Comissão Universidade para os Índios (Cuia), da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), descreve que os indígenas universitários paranaenses recebem uma bolsa de permanência de R$ 633, que tem um acréscimo de 50% se o estudante tiver filhos. O valor é considerado defasado e está sendo revisto. Mas ele argumenta que esse não é o maior empecilho.
  ‘‘A maior dificuldade tem a ver com a formação anterior à universidade. A Educação Infantil e a Fundamental são boas, mas o Ensino Médio é problemático. São poucas as aldeias que oferecem esse nível de ensino. Muitos indígenas têm que se deslocar para as cidades. A evasão e a reprovação no Ensino Médio são grandes’’, explica.
  ‘‘Além disso, o modelo em que é pensada a universidade tem pouca relação com a cultura e o ambiente dos indígenas. Os professores não estão preparados para se relacionar com esses alunos diferenciados’’, acrescenta Oliveira. ‘‘Existe um índice considerável de evasão, que varia muito em cada universidade, mas uma grande dificuldade é o tempo maior que os indígenas necessitam para concluir o curso. Muitos demoram sete, oito anos.’’

Evasão
  O professor Wagner Roberto do Amaral, integrante da Cuia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), relata que neste ano foi criado um grupo de trabalho com o objetivo de analisar a permanência dos indígenas no Ensino Superior. ‘‘O Paraná teve uma iniciativa pioneira, mas falta uma sistematização dos dados de perfil dos estudantes, frequência às aulas, evasão, jubilação.’’
  As estatísticas que existem são isoladas em cada universidade ou compiladas em trabalhos acadêmicos. Um deles foi a tese de doutorado em Educação do próprio Amaral, que abordou o Ensino Superior indígena no Paraná.
  Entre outros números, o pesquisador apurou que nas universidades paranaenses os índices de evasão variaram entre 10% e 85,7% entre os universitários que ingressaram através dos primeiros vestibulares indígenas, no período 2002-2007.
  ‘‘O índice varia muito conforme as condições estruturais de cada universidade e a localização, se é próxima ou não de terras indígenas’’, diz Amaral. Durante este ano, integrantes da Cuia estão visitando as universidades com maiores taxas de evasão com o objetivo de analisar soluções para o problema.
  A FOLHA enviou perguntas ao departamento do Ministério da Educação que trata das políticas federais para educação indígena, mas até o fechamento desta reportagem não havia obtido retorno.

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