Ford pode "desterceirizar" serviços para manter empregos
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domingo, 09 de maio de 1999
Por Liliana Pinheiro 
São Paulo, 10 (AE) - A Ford tem planos de "desterceirizar" serviços para manter os empregos de centenas de metalúrgicos hoje afastados da fábrica de São Bernardo do Campo. Com a queda de produção prevista para este ano, segundo o diretor de Recursos Humanos da montadora, Carlos Augusto Marino, dificilmente haveria como absorver a mão-de-obra ociosa, a não ser com ações desse tipo.
Entre os setores que podem voltar para a administração direta da empresa estão os de proteção ao patrimônio e vigilância, transporte interno de veículos das linhas para os pátios, além de área de recebimento e distribuição interna das peças (logística). Caso a idéia seja aceita por sindicalistas e trabalhadores, haverá queda de salários dos metalúrgicos aproveitados, ainda não calculada.
"A desterceirização só vai ser adotada se significar uma redução de custos para a Ford", afirmou Marino. "Precisamos mais do que tudo nos manter competitivos." O fato de a mudança ir na contra-mão da tendência da indústria, que cada vez mais procura concentrar-se na atividade fim, transferindo para empresas terceiras trabalhos de outra natureza
não o abala. "Nossos funcionários diretos são capazes de fazer um trabalho de excelente qualidade, com mais compromisso e fidelidade", afirmou.
A inversão de rumo começará a ser negociada com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que aceitou em janeiro o afastamento por cinco meses de cerca de 1,5 mil empregados considerados excedentes, com redução de salários. Nesse meio tempo, muitos aderiram a um pacote de demissões voluntárias, que está permanentemente aberto e paga prêmios de 40% do salário, por ano de casa, a quem quiser se desligar.
Com as demissões incentivadas, hoje restam 1.250 afastados. O diretor da Ford não sabe se poderá aproveitar todo esse excedente com as "desterceirizações", mas espera conseguir absorver uma boa parte.
Sem PLR - Marino confirmou também que já negociou com o presidente do sindicato do ABC, Luiz Marinho, a suspensão este ano do pagamento da participação nos lucros os resultados (PLR) para todos os cerca de cinco mil metalúrgicos da fábrica, também com o objetivo de cortar custos e evitar demissões. E que voltará a negociar em junho o aproveitamento dos afastados. "Na verdade, não vamos negociar, e sim criar", afirmou. "Precisamos de saídas muito criativas nesse momento." As "desterceirizações", para surtir o efeito de reduzir custos, terão de ser muito bem elaboradas. Hoje um metalúrgico da Ford ganha em média entre R$ 1.000 e R$ 1.200. Já os trabalhadores de empresas terceirizadas, que hoje fazem vigilância e outros serviços, ganham cerca de R$ 450. A diferença salarial não seria aplicada integralmente.
"Temos de avaliar não a diferença entre o salário do terceirizado e o do funcionário direto, mas sim o que pagamos hoje para a empresa prestadora de serviços e quanto gastaríamos tornando o serviço direto", explicou Marino. Segundo ele, contudo, a redução de salários dos metalúrgicos aproveitados nesse projeto é inevitável.
Acordo - Todos esses planos para aproveitar excedentes em São Bernardo do Campo só vingarão se o acordo que reduziu impostos para veículos e preservou empregos no setor for renovado. Amanhã há reunião entre governo, montadoras e trabalhadores para negociar. Marino tem quase certeza que o acordo será renovado, apesar dos embates entre as partes nas últimas semanas, nas quais a indústria aumentou em até 10% os preços dos carros, provocando a ira do governo e dos metalúrgicos. Caso o acordo não seja renovado, o mercado cairá de tal modo que não haverá forma de manter o efetivo atual na fábrica, segundo disse.
Mas mesmo com a renovação do acordo, o mercado será menos promissor do que a indústria projetou no começo do ano. Logo no início da redução de impostos, há dois meses, o setor projetava vendas internas correspondentes a 1,4 milhão de veículos (incluindo países do Mercosul). Hoje, com os aumentos dos preços decorrentes da mudança cambial, a Ford prevê mercado de 1,2 milhão de veículos, o que permitiria a manobra de "desterceirizações" para manter empregos.
Sem a redução de impostos, o mercado será pouco maior do que 900 mil unidades, segundo a previsão da Ford, uma queda brutal em relação às 1,5 milhão vendidas no ano passado. Nesse caso, haveria corte no efetivo.
Futuro - As "desterceirizações" são só um capítulo da história da montadora no curto prazo. O diretor de Recursos Humanos lembrou que muito do que passará a ser negociado com os funcionários e sindicalistas daqui para frente dependerá da definição da Ford sobre o futuro da fábrica de São Bernardo, a mais antiga da marca no País.
Por exemplo, a empresa hoje se concentra na produção no carro popular - o Ka e o Fiesta - com pouca rentabilidade por disputar uma fatia de mercado muito competitiva em termos de preços. Além disso, a chegada de novas marcas no País está sendo um desafio para as empresas já instaladas reduzirem custos. Segundo Marino, até junho a Ford deve ter uma definição de o que vai produzir na fábrica do ABC, para que tipo de público e que novos modelos passarão a ser fabricados no médio e longo prazo.
Nas demais fábricas da Ford, a situação dos empregados é mais tranquila. Na do Ipiranga, em São Paulo, que produz caminhões, cerca de 400 dos 1,2 mil metalúrgicos estão afastados
mas a tendência é de crescimento da produção por causa da boa safra e vendas do setor agrícola este ano. Na fábrica de Taubaté
que produz motores, perto de 200 dos 1.000 funcionários também estão em casa, mas o lançamento produtos bem aceitos no mercado interno e externo deve propiciar a volta deles a seus postos, de acordo com Marino.


