Díli, Timor Leste, 23 (AE-AP) - Soldados da Força Internacional das Nações Unidas para Timor Leste (Interfet) enfrentaram-se hoje (23) pela primeira vez com o Exército indonésio e as milícias pró-Jacarta.
Ao mesmo tempo, o general australiano Peter Cosgrove, comandante da missão, denunciou os "atos horríveis" cometidos na província pelos paramilitares e advertiu que seus homens dispararão para matar se enfrentarem outros desafios a sua autoridade.
Tiroteios foram ouvidos hoje na caótica capital timorense, levando os civis a buscar refúgio e os membros da força de paz, seus rifles. Apesar de os tiroteios, em pelo menos quatro incidentes, não terem sido qualificados como ataques, os soldados da Interfet mostraram-se prontos para enfrentar confrontações armadas e retaliar.
Cosgrove explicou que os tiros foram disparados por soldados indonésios ressentidos por terem sido obrigados a entregar o controle local. De acordo com a agência de notícias Associated Press, soldados indonésios, que partiam de Timor Leste em três caminhões, dispararam para o ar enquanto passavam por áreas de Díli controladas por forças australianas e britânicas.
O incidente mais grave parece ter sido quando soldados australianos encontraram-se cara a cara com militares indonésios numa base em Taibessi, leste de Díli. Segundo um jornalista, soldados da Interfet entraram na base acreditando que ela havia sido abandonada pelas forças indonésias. Mas elas haviam voltado para buscar um veículo. Surpreendidos pelo retorno inesperado dos indonésios, os soldados australianos dispararam para o ar como advertência, fazendo com que os militares de Jacarta partissem.
A rede de TV americana CNN também noticiou outro incidente durante o qual militares australianos dispararam para o ar para advertir soldados indonésios que estavam recolhendo munições.
Contudo, o general Cosgrove afirmou que seus homens não haviam disparado um só tiro desde segunda-feira, quando as tropas de paz começaram a chegar a Timor Leste. Cerca de 4,5 mil soldados de mais de 10 países devem juntar-se em breve aos 3 mil que já estão na antiga colônia portuguesa.
O secretário de Estado indonésio, Muladi, anunciou hoje a revogação com efeito imediato da lei marcial imposta no dia 7. Ele também disse que a Indonésia confiará à Interfet a administração da segurança nesse território o mais breve possível, "pois a situação na ex-colônia portuguesa está melhorando".
As tropas australianas também detiveram hoje três milicianos envolvidos em outro tiroteio e o general Cosgrove declarou haver versões de que milicianos se estão agrupando na fronteira com Timor Oeste para um possível ataque às forças de paz. Ele advertiu suas tropas contra uma possível reação dos paramilitares pró-Jacarta - que iniciaram uma campanha de terror depois que os timorenses votaram em massa a favor da independência do território - e pediu à ONU que investigue as atrocidades cometidas em Timor Leste.
Enquanto o Exército da Indonésia se retira do território, soldados da Interfet testemunham espetáculos horríveis que demonstram que os milicianos, apoiados por militares indonésios, fizeram reinar o terror durante semanas. Hoje, foram encontrados os corpos de oito pessoas mutiladas em um poço da casa que pertencia a Manuel Carrascalão, um importante líder da resistência. Entre os corpos estava o de uma mulher que foi decapitada.
Moradores do bairro disseram que lá perto está o Hotel Tropical, antigo QG da milícia Aitarak. Eles acreditam que possivelmente há muitos mais corpos no poço. "Acho que deve haver uns 20. Antes, o nível da água era muito mais baixo, cerca de 10 metros. Agora, está perto da borda", disse Marian Soares, uma vizinha.
Ainda hoje, a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Mary Robinson, pediu a criação de um tribunal encarregado de examinar os crimes contra a humanidade cometidos nessa província
invadida pela Indonésia em 1975.
Em um discurso na sessão especial da Comissão de Direitos Humanos, Robinson declarou que "as informações disponíveis demonstram que uma violência extrema foi perpetrada por diferentes grupos de milicianos, na qual também estão implicados elementos das forças de segurança indonésias".

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