Dili, 25 (AE-AP) - A Organização das Nações Unidas (ONU) admitiu neste sábado (25) que a crise humanitária em Timor Leste é muito mais grave do que a organização avaliou inicialmente.
Nas viagens pelo interior, funcionários humanitários têm encontrado vários vilarejos desertos porque milhares de pessoas fugiram para as florestas por temer a ação das milícias pró-Indonésia.
Na capital timorense, intensificam-se os saques contra os últimos depósitos e lojas de alimentos com mercadorias.
Hoje, centenas de refugiados saqueraram um armazém de café em Dili, sem que os integrantes das Forças Internacionais das Nações Unidas para Timor Leste (Interfet) tentassem detê-los.
Foi a segunda vez que timorenses que estavam escondidos das mílicias nas florestas entraram na capital em busca de comida.
Na quarta-feira, soldados australianos intervieram para conter a multidão, mas hoje a Interfet decidiu nada fazer e os "capacetes-azuis" permaneceram no local apenas observando.
O porta-voz da ONU, David Wimhurst, disse que os problemas são "grandes, muito grandes". Ainda há denúncias de que forças indonésias estão disparando para o ar para aterrorizar os timorenses. Entretanto, o chefe do Estado-Maior da missão de paz
coronel Mark Kelly, disse que a segurança está aumentando em Dili e a Interfet está quase pronta para iniciar a segunda fase da intervenção: tornar os lugares fora da capital seguros para o recebimento de ajuda e o realocamento dos refugiados.
Um comboio de caminhões com alimentos deixou Dili neste sábado em direção à segunda maior cidade de Timor Leste, Baucau, a 130 quilômetros de distância.
Em Jacarta, o presidente indonésio B. J. Habibie disse hoje que as manifestações lideradas pelos estudantes, em protesto contra uma lei que aumenta o poder dos militares, não vão forçá-lo a renunciar. A informação foi transmitida pelo ministro da Educação, Juwono Sudarsono, depois de um encontro com Habibie.
Sudarsono ressalvou, porém, que o presidente poderá tomar essa atitude se for exigida pela Assembléia Consultiva do Povo (Parlamento), em sua próxima sessão geral.
A declaração tem pouco efeito prático porque, de qualquer modo
o Parlamento vai reunir-se em novembro para eleger o próximo presidente e a candidata favorita é a oposicionista Megawati Sukarnoputri.
A recusa de Habibie a renunciar foi uma resposta aos violentos protestos estudantis dos últimos dias, nos quais seis manifestantes e um policial morreram. Foram as piores manifestações desde que milhares de estudantes saíram às ruas em maio de 1998, forçando a queda do ditador Suharto.
Hoje, cerca de 2 mil jovens marcharam em Jacarta na rua que foi palco dos confrontos com a polícia esta semana, gritando "revolução" e cobrindo o local com flores vermelhas. A polícia não interveio.
A onda de protestos começou depois que o Parlamento aprovou na quinta-feira uma lei dando às Forças Armadas amplos poderes em situações de emergência. Na tentativa de esfriar o movimento, na sexta-feira o governo anunciou a suspensão dessa medida.
Mesmo assim, as batalhas de rua continuaram noite adentro, com os manifestantes atirando bombas incendiárias e pedras na polícia, que, em resposta, usou gás lacrimogêneo e disparou balas de borracha e munição real. De acordo com um médico que atendeu algumas das vítimas, cinco pessoas foram mortas por fogo real, o que a polícia nega.

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