Forças da Otan descobrem evidências de atrocidades enquanto sérvios fogem
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de junho de 1999
Por Melissa Eddy 
Pristina, 14 (AE-AP) - Milhares de soldados da Otan ampliaram cuidadosamente hoje (14) seu controle sobre Kosovo, visando a trazer alguma estabilidade à província destroçada pela guerra e ódio étnico e descobrir evidências de massacres étnicos.
Enquanto forças de paz avançavam mais fundo em Kosovo, soldados iugoslavos continuavam com sua imposta retirada e milhares de sérvios fugiam, numa mistura de desafio com desespero. Um proeminente líder sérvio afirmou que cerca de 30.000 sérvios estavam partindo hoje.
Sérvios de Kosovo temem que a maioria albanesa étnica promova uma revanche sangrenta contra eles por anos de opressão e noticiadas atrocidades generalizadas. Refugiados que começaram a sair em massa de Kosovo após o início da campanha de bombardeios da Otan no final de março falavam que soldados e paramilitares sérvios estavam massacrando albaneses étnicos.
Os relatos dos refugiados não puderam ser independentemente confirmados na época e uma das arrepiantes tarefas das forças de paz é descobrir o que realemente aconteceu. Hoje, elas investigaram cuidadosamente um cemitério na cidade de Kacanik, onde aparentemente existem 81 covas recentemente cavadas que contêm, segundo moradores locais, corpos de vítimas das atrocidades sérvias.
O capitão britânico Andy Reeds disse que investigadores de crimes de guerra serão chamados para examinar o local, 50 quilômetros ao sul de Pristina.
Tropas de paz continuavam a desembarcar na destroçada província vindos das vizinhas Macedônia e Albânia, e oficiais disseram que mais de 14.300 soldados aliados haviam entrado em Kosovo até a manhã de hoje.
Um comboio de 1.200 fuzileiros navais dos EUA começaram a cruzar a fronteira logo ao sul de Kacanik nas primeiras horas da manhã, e forças americanas assumiram o controle da áerea, incluindo o local das covas, tomando-o de tropas britânicas.
Um grupo de marines na principal rodovia que liga a Pristina assumiram posições de combate atrás de seus veículos quando ouviram tiros vindos de casas a 500 metros de distância. Eles disseram não acreditar que eram os alvos.
"Todos estamos em alerta enquanto entramos, com a guarda levantada", disse o fuzileiro naval Will Rapier, 20 anos. "Só queremos ver isto terminado para podermos voltar para casa."
Apesar da tensão, os movimentos de tropas de hoje ocorreram sem a repetição das fatais confrontações de domingo, quando soldados mataram a tiros um sérvio em Pristina e forças alemãs assassinaram um homem e feriram outro depois que os homens dispararam contra eles de um carro na cidade de Prizren.
Nesta segunda-feira, cidadãos sérvios saíram em massa de Prizren, a segunda maior cidade de Kosovo, ouvindo xingamentos de albaneses étnicos que explodiram em celebração de vitória. Soldados alemães desarmaram diversos membros do Exército de Libertação de Kosovo (ELK), o grupo guerrilheiro albanês étnico, enquanto eles tentavam retirar soldados sérvios feridos do principal hospital de Prizren.
Está previsto no acordo de paz de Kosovo que o ELK irá se desmilitarizar, mas existe uma generalizada preocupação de que o grupo tentará consolidar sua influência em meio à instável situação de segurança. O ELK abriu um escritório hoje em Pristina.
A agência independente de notícias Beta divulgou hoje que três sérvios foram mortos hoje por homens do ELK num subúrbio de Pristina. O Centro de Imprensa Sérvio também noticiou que seis pessoas foram mortas no mesmo subúrbio, incluindo um funcionário sérvio de uma estação de televisão.
Tropas italianas entraram hoje na cidade de Pec, uma das regiões de maior tensão étnica em Kosovo. Pec, onde está a sede da Igreja Ortodoxa Sérvia em Kosovo, foi cenário, segundo relato de refugiados, de grandes massacres étnicos em meses recentes.
Tropas iugoslavas se retiraram da cidade nesta segunda-feira depois de supostamente incendiarem casas, assassinarem pessoas e estuprarem moradoras em dias anteriores. Eles gritavam e xingavam ao sair.
Dois jornalistas alemães foram mortos a tiros no domingo por homens não identificados 25 quilômetros ao sul de Pristina. O semanário alemão Stern identificou-os como sendo o fotógrafo Volker Kraemer, 56 anos, o repórter Gabriel Gruener, 35 anos. A revista também informou que o intérprete da equipe estava desaparecido.
Em Pristina, continuava um impasse sobre um estratégico aeroporto entre a Otan e tropas de paz da Rússia. O presidente norte-americano Bill Clinton e seu colega russo Boris Yeltsin conversaram por telefone hoje sobre persistentes diferenças em relação a Kosovo, e a Casa Branca anunciou que o secretário de Defesa William Cohen e a secretária de Estado Madeleine Albright irão se reunir com seus colegas russos em Helsinque, Finlândia, nos próximos dias.
O papel da Rússia na imaginada força de paz de 50.000 integrantes, entre eles 7.000 americanos, não foi claramente definida no plano de paz. Um contingente de cerca de 200 soldados russos chegou inesperadamente na madrugada de sábado a Pristina, à frente das tropas da Otan, e assumiu o controle do aeroporto.
O comandante da Otan em Kosovo, tenente-general britânico Mike Jackson, disse hoje que ele não considera importante do ponto de vista militar a presença dos russos. Ele afirmou que tratava-se "de uma questão quase inteiramente política", e acrescentou: "Não estou em luta com eles. Eles estão na pista de pouso. Eles o consideram importante. Não é importante para mim nesta etapa. O que é importante para mim é fazer este trabalho no campo."
Autoridades dos Estados Unidos e de países aliados têm tentado minimizar indicações de uma rivalidade com os russos, que exigem o controle de um setor no norte de Kosovo onde sérvios étnicos estão concentrados.
Enquanto isto, o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic visitou as ruínas de uma ponte destruída sobre o rio Danúbio em Beska, 50 quilômetros a noroeste da capital Belgrado, e oficialmente inaugurou os esforços de reconstrução do país.
"Agora que a paz está de novo aqui, enfrentamos a tarefa de reconstruir o país", disse ele, segundo a agência estatal de notícias Tanjug. A televisão sérvia mostrou uma multidão acenando bandeiras, aplaudindo e gritando: "Este é o caminho!"
O porta-voz do Pentágono, Kenneth Bacon, disse que cerca de 15.000 soldados iugoslavos já deixaram Kosovo e que imensos comboios estavam se preparando para partir. As tropas remanescentes - de um contingente de 40.000 em Kosovo quando o acordo de paz foi alcançado - e todos os paramilitares sérvios devem sair até 20 de junho.
Cerca de 860.000 albano-kosovares abandonaram a província durante uma generalizada repressão que começou depois que a Otan lançou sua campanha de bombardeios em 24 de março.
Cerca de 300 dos refugiados tentaram retornar hoje, cruzando a fronteira da Iugoslávia com a Albânia. Mas soldados de paz da Alemanha e rebeldes do Exército de Libertação de Kosovo os fizeram retornar.


