Quando o verão se aproxima, um fator aumenta na mesma proporção da temperatura registrada nos termômetros: a preocupação das autoridades sanitaristas. É que, pelo menos nos últimos dez anos, a chegada da estação representa também o surgimento de epidemias típicas do período, as chamadas ‘‘doenças de verão’’. Esse ano, as tradicionais campanhas de esclarecimento à população para evitar os males do verão ganharam um aliado de peso: o Plano de Erradicação do Aedes aegypti do Brasil (PEAa), que pretende varrer do território nacional a dengue e, por tabela, várias outras doenças epidêmicas.
O plano, orçado em R$ 4,5 bilhões e previsto para durar três anos, vai mobilizar até as Forças Armadas no combate ao Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue. O PEAa será lançado oficialmente em 30 de março de 97, quando 65 mil agentes de saúde sairão às ruas para acabar com os focos de reprodução do mosquito, mas a fase inicial do plano já está em curso. Os órgãos municipais e estaduais de saúde se encarregaram de criar comissões executivas do programa, treinar pessoal e fazer um lenvantamento sobre a presença do mosquito em todos os municípios do Brasil.
No Rio, o plano foi apresentado num congresso realizado em outubro com representantes dos 81 municípios e, neste mês, estão programados seis seminários em que serão debatidas as estratégias de aplicação do plano no Estado. As ações do PEAa envolvem oito ministérios - entre eles o da Fazenda e o do Planejamento - e serão direcionadas, num primeiro momento, a 2.000 municípios que terão prioridade do Ministério da Saúde no combate à dengue.
O secretário-executivo do PEAa, Jaime Calado, diz que o plano é mais abrangente do que as campanhas feitas anualmente para evitar a doença. ‘‘Trata-se de um trabalho de erradicação da doença, é algo muito mais rigoroso do que o simples controle, como era feito até então’’, afirma Calado. Como o plano prevê também investimentos em saneamento básico, ele acredita que outras epidemias de verão, como a leptospirose - transmitida pela urina de rato, com maior incidência em locais onde ocorrem inundações -, ocorrerão com menor frequência. ‘‘Uma das vantagens do plano é que todas as ações vão servir também para evitar as outras doenças’’, lembra.
Segundo ele, das ‘‘doenças de verão’’ a dengue é a mais preocupante. ‘‘O Aedes aegypti não é tão inofensivo quanto se pensa, até porque ele também transmite o vírus da febre amarela’’, justifica. Calado admite que um dos fatores que motivaram a criação do PEAa foi o temor de que a febre amarela no Brasil seja reintroduzida em áreas urbanas - onde há 54 anos não ocorrem casos da doença. ‘‘Se isso voltar a acontecer, fecham-se imediatamente portos e aeroportos, porque a febre amarela é uma doença de notificação compulsória internacional’’, adverte. ‘‘Enquanto houver o Aedes aegypt, existe o perigo da dengue e da febre amarela.’’
O PEAa é uma iniciativa que está sendo bem recebida inclusive pelas autoridades sanitárias de outros países. Esta semana, o plano será apresentado durante a reunião anual da Sociedade Americana de Medicina Tropical, em Baltimore, nos Estados Unidos. Além disso, o PEAa foi elogiado por técnicos da Organização Panamericana de Saúde (Opas) e recomendado como modelo de combate à dengue em todos os países das Américas - no continente, só não são registrados casos de dengue no Canadá, Bermudas, Chile e Uruguai. ‘‘É a primeira vez em dez anos que um país latino-americano declara guerra total ao mosquito da dengue’’, elogia Michael Nelson, consultor da Opas para as Américas.
Segundo ele, em reunião do Conselho Diretor da OPAS na sede da organização, em Washington (EUA), a ser realizada ainda este mês, a entidade deve adotar o PEAa como base de um plano continental de erradicação do Aedes aegypt. ‘‘Uma das vantagens é que, em vez das campanhas de combate à dengue, feitas normalmente durante o verão, esse plano vai durar o ano inteiro’’, lembra Nelson. ‘‘A intensidade é dez vez maior que as campanhas tradicionais, já que envolve as esferas de poder federal, estadual e municipal.’’
O Brasil conseguiu eliminar a dengue duas vezes ao longo desse século - na década de 40 e nos anos 70. Atualmente, o único Estado onde o Aedes aegypti não está presente é o Amapá. O campeão em casos da doença é a Bahia, onde até agosto 48,2 mil pessoas foram infectadas com o vírus da dengue. Em todo o território nacional, foram registrados 135 mil casos até agosto, e a expectativa do Ministério da Saúde é de que até o fim do ano esse número chegue a 150 mil - 26 mil casos a mais que no ano passado.
No Rio, além do PEAa, a Secretaria Municipal de Saúde já colocou nas ruas uma campanha para alertar a população também sobre outras epidemias de verão, como leptospirose, conjuntivite e diarréia. Segundo a coordenadora de Epidemiologia da secretaria, Mary Baran, a prefeitura já começou a distribuir 128 mil cartazes e folhetos, contendo explicações sobre como se precaver em relação a cada uma das doenças. Para ela, ‘‘esclarecimento é o mais importante instrumento de combate a essas doenças’’.

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