Forças armadas argentinas estão de férias
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segunda-feira, 05 de julho de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 06 (AE) - "Voltamos dia 1º de agosto". Este cartaz, comum em qualquer comércio que feche suas portas por férias, poderia ser colocado nos portões dos quartéis argentinos. E não seria removido, já que as forças armadas deste país entraram em férias de inverno. A ausência dos militares é total: nesta semana, os 40 mil homens do exército, os 17 mil da marinha e os 13 mil da aeronáutica tiraram os uniformes e colocaram roupas mais adequadas para o dolce far niente.
Todo o país ficará sem proteção militar alguma durante várias semanas.
Os limites da Argentina serão protegidos somente pela Gendarmeria, a polícia de fronteira. No caso de um hipotético ataque externo, o país estará sem defesas. Mas não existe preocupação no governo por isso, já que a Argentina eliminou completamente suas hipóteses de conflito: o Brasil, principal adversário do país desde o século passado, é agora seu pacífico sócio do Mercosul. O Chile, hipótese de conflito até três anos atrás, deixou de ser o preocupante país que continuava modernizando seu armamento, para passar a ser colega de exercícios navais conjuntos.
Além disso, pela própria Constituição argentina foram eliminadas as possibilidades de recuperar pela via bélica as ilhas Malvinas, em posse da Grã-Bretanha desde o século passado.
As únicas atividades dos militares argentinos no momento consistem em missões de paz da ONU, âmbito onde o país participou ativamente desde o início da década: um terço dos militares argentinos já foram enviados pela ONU para cenários tão diferentes como o Haiti, Bósnia e Kuwait.
As férias das forças armadas não passam desapercebidas, já que os militares estiveram intensamente presentes na vida política do país desde que em 1930 deram o primeiro golpe de Estado. Depois disso, sucederam-se governos colocados no poder através de eleições fraudulentas apoiadas pelos militares; breves governos de fato, e duas ditaduras que duraram entre seis e sete anos. Em 1983, a volta da democracia não acalmou os pruridos nos quartéis, que até 1991 foram autores de cinco tentativas de levantes militares.
As anistias aos militares envolvidos na repressão da última ditadura, e os drásticos cortes orçamentários tiraram das forças armadas os argumentos e também os elementos para continuar com suas rebeliões. A redução das verbas fez que desde o início de maio a marinha esteja sem patrulhas aéreas e navais para controlar a pesca ilegal no Atlântico Sul.
A crise financeira está fazendo que pilotos da aeronáutica ofereçam sua experiência para as companhias aéreas. Nos últimos doze meses, uma centena de pilotos deixou a força aérea para passar às empresas privadas. Além dos melhores salários, os pilotos também procuram segurança: a força aérea não tem dinheiro para a manutenção dos aviões.
Como se não fosse suficiente a redução das verbas, o governo somente liberou 30% do orçamento prometido para as forças armadas no primeiro semestre. Sem dinheiro no bolso para pagar os gastos mínimos, os chefes da três forças decidiram dar férias a seus funcionários: desta forma pretende-se reduzir os gastos de energia elétrica, gás, comunicações e comida dos quartéis.


