FonteCindam mudou comportamento na véspera da mudança
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de abril de 1999
Por Ribamar Oliveira, Cláudio Gradilone e Gustavo Freire 
Brasília, 28 (AE) - O Banco FonteCindam - uma das instituições que mais apostaram no mercado que o governo não faria uma desvalorização do real - mudou abruptamente de comportamento na véspera da alteração da política cambial e da saída de Gustavo Franco da presidência do Banco Central (BC). No dia 12 de janeiro, o FonteCindam foi uma das instituições que mais comprou contratos futuros de dólar na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), atitude que é adotada por quem deseja se proteger de desvalorizações por acreditar que isso pode acontecer.
Naquele dia, comprou 1.700 contratos de dólar futuro com vencimento em fevereiro, o equivalente a um valor de face de US$ 170 milhões. As compras constam do relatório preparado pela BM&F que foi encaminhado à CPI dos Bancos hoje.
Até a véspera da desvalorização, o FonteCindam atuava consistentemente na ponta vendedora no mercado futuro de câmbio. Ou seja, ele vendia muito mais do que comprava. No dia 4 de janeiro, fez uma única operação e vendeu 200 contratos (US$ 20 milhões). No dia 6, vendeu 1.900 contratos (US$ 190 milhões) e comprou 1.000 contratos (US$ 100 milhões). No dia 7, o banco vendeu l.700 contratos (US$ 170 milhões) e comprou 800 contratos (US$ US$ 80 milhões). Os valores entre parênteses não indicam, porém, necessariamente que o banco gastou ou ganhou esses dólares. O ganho ou perda no dia a dia do mercado futuro ocorre por meio dos ajustes diários da posição.
No dia 8, as vendas foram de 1.700 contratos (US$ 170 milhões) e as compras de 200 contratos (US$ 20 milhões). No dia 11 de janeiro, uma segunda-feira, o FonteCindam não operou na BMF. Mas, no dia seguinte, véspera da desvalorização, entrou pesadamente comprando dólares. Ao todo, comprou 1.700 contratos (US$ 170 milhões) e não vendeu nenhum.
No dia 13 de janeiro, o governo decidiu alargar a banda cambial (com o piso da banca ficando em R$ 1,2282 por dólar e o teto em R$ 1,32 por dólar) e pegou o Banco FonteCindam em posição vendida no mercado futuro de dólares - isto significa que ele tinha mais contratos para entrega de dólares do que contratos para compra da moeda norte-americana. Mas os dados da BM&F mostram que o banco tentou mudar de posição na véspera da desvalorização e ainda não está claro porque não conseguiu. Uma das possibilidades era a reduzida quantidade de vendedores: a única instituição que se dispunha a vender contratos - ou seja, a assumir o risco de prejuízos com a desvalorização - era o Banco do Brasil (BB).
No dia 14, o Banco Central decidiu vender dólares ao FonteCindam por R$ 1,3220 (portanto, acima do teto da banda) para que a instituição conseguisse liquidar seus contratos na BM&F. Ao todo, o BC vendeu 7.900 contratos (US$ 790 milhões) ao banco e aos fundos de investimentos que a instituição administrava. Com as informações enviadas hoje pela BM&F à CPI, descobriu-se que o BC só vendeu 1.600 contratos (US$ 160 milhões) ao Banco FonteCindam.
Os outros 5.300 contratos foram vendidos aos fundos de investimentos administrados pelo banco e aos fundos dos clientes do FonteCindam. Na negociação com o Banco Central, a diretoria do FonteCindam incluiu fundos de investimentos em que a instituição não detinha direta ou indiretamente aplicações, ou seja, os cotistas eram somente clientes da instituição.


