Fome ronda acampamento de sem-terra
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sábado, 09 de agosto de 1997
Agência Folha Itaquiraí (MS) 
Arquivo FolhaCarênciaInvasão de famílias sem-terra em fazenda no Mato GrossoA ameaça de fome ronda o maior acampamento de trabalhadores rurais sem-terra do País, em Itaquiraí, a 360 km de Campo Grande (MS). Com 2.163 famílias ou cerca de 7.500 pessoas, distribuídas entre as margens da rodovia BR-163 e parte da Fazenda Mestiço, o acampamento 8 de Março já saqueou seis caminhões e matou 42 cabeças de gado, segundo o MST, ou 120 animais, conforme o dono do rebanho, Orensy Rodrigues da Silva.
Mesmo com os saques e a matança, a comida no acampamento é escassa e de má qualidade. Faltam principalmente óleo, feijão e açúcar, segundo o coordenador de grupo, José Padilha dos Santos. O cardápio da maioria das famílias na semana passada foi arroz e a carne obtida com o abate - cujo estoque não deveria passar deste fim-de-semana. Os 546 alunos matriculados na escola do acampamento nunca receberam merenda escolar, de acordo com a professora primária Izabel Leite da Silva.
Para atender cerca de 1.500 crianças, a prefeitura de Itaquiraí repassa 200 litros de leite diariamente, cedidos por um laticínio da região, o que rende uma ou duas xícaras por criança ao dia. A alimentação precária contribui para o surgimento de doenças no acampamento. Os coordenadores da equipe de saúde contavam 110 pessoas com problemas respiratórios e intestinais, a maioria crianças.
O acampamento não recebe nenhum medicamento desde a invasão da Fazenda Santo Antônio, em março, de onde as famílias foram transferidas um mês depois para a beira da rodovia. O tratamento é feito à base de xaropes caseiros produzidos com cascas de árvore, limão e folhas. MST divulga que dez crianças teriam morrido por problemas decorrentes da desnutrição, mas não apresenta provas. Os pais foram embora depois das mortes, afirmou o coordenador Carlos da Silva.
A má qualidade da água consumida no acampamento é outro problema para os sem-terra. Eles afirmam que o córrego Fala-Fina, usado para banhos e lavagem de roupa, está contaminado por agrotóxicos despejados na plantação de cana-de-açúcar de uma usina de álcool de Naviraí. Dá uma coceira que demora dias, disse José Padilha.
A água para beber é retirada de poços abertos em diversos pontos do acampamento, mas a maioria está poluída. O solo é arenoso e contamina a água, explicava o sem-terra Josias dos Santos, enquanto retirava um balde de água amarelada do poço que abriu nos fundos de seu barraco na semana passada.
Uma reunião marcada para amanhã no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) pode solucionar a crise de alimentos no acampamento, mas apenas pelos próximos 30 dias. O MST ainda não revelou se vai aceitar sair da Fazenda Mestiço em troca das 2.163 cestas básicas do programa Comunidade Solidária.


