Fome nos Estados Unidos Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 10 (AE) - A inigualável prosperidade que os Estados Unidos vivem há mais de oito anos pode já ter alterado o modelo que os analistas usam para estudar a maior economia do planeta. Mas de pouco adiantou até agora para os 31 milhões de americanos que enfrentam diariamente o problema da insegurança alimentar, por falta de dinheiro para comprar comida. A informação está num estudo divulgado ontem (09) pela organização não governamental Bread for the World - Pão para o Mundo -, como parte de uma campanha para acabar com a fome no mundo.
Embora os números globais da fome tenham caído nas últimas décadas, a falta de comida matou 400 milhões de pessoas nos últimos 40 anos, ou três vezes mais do que o número de pessoas que morreram em todas as guerras do século 20. Computados os 31 milhões de americanos, mais de 800 milhões de habitantes do planeta, ou cerca de 13% da população total, vivem em estado de penúria alimentar. Os números relativos aos Estados Unidos chamam particularmente atenção por mostrarem uma realidade típica do Terceiro Mundo num país onde o problema nutricional não é a falta, mas o excesso de alimentação: de cada três americanos, um é obeso.
"Ao mesmo tempo em que os recordes do mercado de ações e o baixo desemprego tornaram-se clichês na imprensa, o boom econômico não melhorou a vida de todos os americanos", afirmou o reverendo David Beckman, presidente do Instituto Pão para o Mundo, uma organização sediada num subúrbio de Washington que congrega igrejas de diferentes denominações e grupos comunitários. Nos EUA, a fome não se manifesta em suas formas mais dramáticas de completa falta de alimentos e inanição como ocorre nos países pobres. Isso, disse Beckman, "torna mais fácil ignorar um problema que continua a existir em todo o país". Cerca de 19 milhões de adultos e 12 milhões de crianças vivem nos 10,2% de lares americanos nos quais a insegurança alimentar é uma realidade diária. De acordo com o estudo, o problema existe principalmente nos estados do Novo México, Texas
Mississipi, Arizona, Louisiana, Arkansas, Oregon e no Distrito de Columbia, que abriga a capital do país. O governador do Texas e pré-candidato presidencial republicano, George W. Bush, ilustrou recentemente a tendência dos políticos americanos a ignorar o assunto. Diante das estatísticas do departamento de Agricultura que colocavam seu estado entre os que tem as maiores porcentagem de pessoas em situação de risco alimentar, Bush disse que não acreditava nas estatísticas federais.
Para Beckman, "o que torna os números da fome na América particularmente chocantes é que este é um problema que pode ser resolvido". Segundo ele, as igrejas e instituições de caridade têm um papel a cumprir mas não podem fazer tudo. "O governo precisa fazer sua parte", disse Beckman. Nos EUA, Beckman estima que o problema seria eliminado com um aporte adicional de US$ 18 por pessoa por ano nos programas federais de selo alimentação, ou US$ 5 bilhões, e um aumento de um dólar, ou 19 5%, no salário mínimo de US$ 5,15 por hora. A redução do número de famintos no mundo pela metade até o ano 2015 - um objetivo estabelecido por várias agências das Nações Unidas em conferências internacionais - custaria mais US$ 4 bilhões por ano em contribuições das nações industriais aos programas de assistência.
Segundo Beckman, a verba federal adicional necessária para acabar com a fome nos EUA equivale ao montante que o governo economizou por ano com o fim do programa de assistência automática aos pobres criado durante a Grande Depressão dos anos 30 e eliminado pelo Congresso republicano, com o apoio do presidente Bill Clinton, em 1996. O estudo do grupo liderado por Beckman foi co-patrocinado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (IFAD), uma agência da ONU.





