Ed Ferreira/AE
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)‘‘Gosto de nada’’O garoto Adeilton, de 7 anos, filho de Josefa da Costa, corta palma (uma espécie de cacto) para cozinharA expectativa da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) é que hoje tenha início a distribuição de cestas básicas em alguns municípios do semi-árido nordestino, que enfrenta o que alguns chamam da maior seca do século. A distribuição seguirá os critérios adotados pelo programa Comunidade Solidária, realizada por uma comissão municipal integrada pela prefeitura, vereadores, igreja, sindicatos e associações. A comissão se encarrega de cadastrar as famílias, pegar os alimentos nos armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e distribuí-los.
De acordo com a assessoria do superintendente do órgão, Sérgio Moreira, que tomou posse ontem, já estão disponíveis, nos cerca de 50 armazéns da Conab localizados no semi-árido, os alimentos para atender as famílias dos 1.209 municípios nordestinos em situação crítica.
Tudo depende, agora, de acordo com a assessoria, da agilidade das prefeituras em criarem a comissão municipal. Ontem, a Sudene enviou ofícios informando o processo aos municípios que devem devem avisar imediatamente ao órgão a criação da comissão para que seja autorizada a liberação das cestas na Conab.
Para não ter a casa saqueada pelas vítimas da seca, o prefeito de Soledade, Fernando Araújo Filho criou ontem as três primeiras frentes de trabalho da região do Cariri, na Paraíba. Araújo, que na semana passada teve que deixar a cidade, sob ameaças, para conseguir ajuda do governo, contratou 800 pessoas para limpar antigos açudes pagando R$ 60,00 por 12 dias de trabalho. É a antiga prática de ocupação de flagelados em trabalhos dispensáveis, como pretexto para distribuição de dinheiro aos atingidos pela seca.
No sábado passado, Fernando Araújo teve a casa cercada por 300 famílias de flagelados que ameaçaram entrar na residência e retirar tudo o que ele tinha, além de saquear o armazém do vice-prefeito e o comércio de Soledade. Ontem, depois de retornar de João Pessoa, onde tentou em vão ajuda do governo do Estado, o prefeito resolveu instalar as primeiras frentes de trabalho, para evitar que a tensão na região se transformasse em tragédia.
Ao contrário do que anunciou o governo, as frentes de trabalho não são diferentes das outras criadas pelos governos em secas passadas. Homens, mulheres e crianças se revezam na retirada de terra de açudes abandonados para possibilitar um melhor armazenamento de água quando a chuva chegar. O próprio prefeito admite que tudo não passa de paliativo, sem resultados práticos.
Ontem foi iniciada a distribuição das primeiras cestas básicas do governo do Estado no município de São Vicente do Seridó. Em alguns locais as cestas serão distribuídas mensalmente, o que obrigará muitas famílias a comerem novamente o xique-xique e a palma - duas plantas do semi-árido usadas na alimentação do gado - como complementação alimentar. Rosinete Cordeiro dos Santos, de 21 anos, prevê que a cesta durará apenas oito dias. ‘‘Vamos regrar ao máximo, mas a comida acaba em uma semana’’, diz ela, que tem oito filhos pequenos. Edson, o caçula de dois meses, nunca tomou leite na vida, mas já experimentou caldo de palma.
Com o marido Simão José Lorentino doente há dois meses, a lavradora Josefa Antônia da Costa Lorentino não sabe o que fazer para dar de comer aos nove filhos. Da cesta básica recebida ontem, resta um pouco de feijão, macarrão e farinha, que serão misturados ao caldo de palma que o filho Adeilton colhe no quintal. ‘‘Esse mato não tem gosto de nada, como nossa vida aqui no sertão’’, lamenta Josefa, de 44 anos. ‘‘Só o Padre Cícero e Deus podem nos tirar dessa miséria’’.
Seu vizinho, Francisco de Assis dos Santos, pai de cinco filhos, também não sabe o que fazer quando a cesta de alimentos acabar. ‘‘Vamos comer xique-xique ou o que tiver no mato’’, diz Assis, contando, ainda, que há quatro meses não vê dinheiro e trabalho.

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