Só muita fé e muita vontade de perpetuar uma tradição religiosa e folclórica explica a determinação de tanta gente para enfrentar o mau tempo, percorrer 17 quilômetros de estrada de terra enlameada para chegar ontem ao bairro rural de Jacutinga, em Ribeirão do Pinhal (norte pioneiro) e participar do último dia da 74 edição da Festa dos Santos Reis, uma das mais importantes do gênero no Estado.
A celebração católica em homenagem aos três reis magos encerrou ontem os festejos natalinos usando elementos do folclore português e brasileiro.
A principal marca do evento é o grupo de músicos que usa instrumentos de corda e de percussão, a chamada folia, que percorre, com cantorias improvisadas e figurino típico, as casas da zona rural em busca de donativos, num ciclo que engloba vários dias antes e depois da passagem de ano.
Ontem, exatamente 2012 anos depois da visita de Melquior, Baltazar e Gaspar ao menino Jesus, a tradição do catolicismo popular estava praticamente intacta no Jacutinga, localidade onde ainda vivem 30 famílias. O ''embaixador'' José de Souza comandou a folia. Fez a última visita e cantou pela estrada até chegar ao centro da festa.
Uma grande tenda foi armada no paço onde está instalada a capela Imaculada Conceição e onde foi servido uma farta refeição para pelo menos 1,5 mil pessoas.
''A gente recebe muitas doações e sempre fez questão de oferecer alimentação e bebida (não alcoólica) de graça. Não permitimos que nada seja vendido'', afirma o comerciante Amado Dutra, de 73 anos.
Os voluntários servem pão com carne moída para aplacar o apetite de quem chega cedo. Depois que é feita a passagem de estandarte (quando o festeiro do ano seguinte é oficialmente designado), mais comida. Aí com tudo o que a culinária caipira consagra: arroz, feijão, salada, farofa, carne assada, frango com macarrão, leitoa no tacho. Na sobremesa, picolé.
Os números são superlativos: 3 mil pães franceses, 200 quilos de carne moída, 1,2 tonelada de carne bovina, 350 quilos de carne suína, 250 quilos de frango e muito mais.
Além de manter a tradição - quase extinta na maioria das regiões do País - viva e forte, a Festa de Reis de Jacutinga é o momento maior de agregação dos Dutra, família mineira que migrou de São Sebastião do Paraíso e que fundou a localidade nos anos 30. Eles se espalharam pelo país mas fazem questão de anualmente voltar às origens a cada início de ano, cada vez mais numerosos.
O filho de Amado, Fábio, um advogado de 38 anos radicado em Curitiba, está preparando um projeto para que a família ganhe apoio oficial nas próximas edições. O desejo dos Dutra é que o evento entre no calendário oficial do Estado e tenha acesso à subvenções estaduais e federais. Já há planos bem claros entre os líderes da família. Um dos problemas mais urgentes é a instalação de um transformador. No dia da festa, a sobrecarga de energia provoca quedas constantes no fornecimento. ''Queremos uma estrutura própria para a festa para dar mais conforto aos visitantes''.
Enquanto o sonho não vira realidade, os Dutra se desdobraram para que tudo saísse da melhor maneira. Os festeiros deste ano foram o caminhoneiro Jair Dutra, 49 anos, e a sua sobrinha, a chefe de cozinha, Rafaela Dutra, 20 anos, uma das mais jovens a exercer a função. Ontem, ela distribuiu milhares de fitinhas e de botóns como lembrança. Se dizia tensa mas feliz. No ano que vem, é a vez de Tião Dutra, que já alardeava: ''Já ganhei 13 cabeças de boi. A festa vai ser melhor ainda''.

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